Home | Crónicas | Buluve, o pai dos elefantes

Buluve, o pai dos elefantes

image

Na minha já longa carreira profissional, muitas foram as caçadas que me marcaram, mas uma ficou gravada com tanto pormenor que ainda hoje sinto os cheiros que me acompanharam durante as longas caminhadas e ainda hoje oiço os ruídos que me rodearam durante as muitas horas em que sofri o efeito da derrota, mas também o breve minuto em que rejubilei quando a vitória aconteceu.

 

Enquanto deambulava pela área do Mamué, desde o Mulovei do John Cabral, às serranias que entravam pelo Carivo do Álvaro Eugénio, desde a cordilheira da Munda Evambo às planícies do Tchikangala e desde a Pescaria da Binga do Quim Zé, à Belonguera do Kaminino, procurando e caçando elefantes, várias vezes persegui o famoso Buluve.
A verdadeira odisseia protagonizada por um elefante especial, com direito a nome atribuído pelos homens que o conheciam, faz parte dos meus livros e será de novo homenageada se voltar a escrever, porque Buluve foi, sem dúvida, o elefante mais importante da minha vida. 
As conclusões a que chegara sobre o colosso foram baseadas em todas as histórias ouvidas e, principalmente, nas narrativas que ouvi da boca do Alberto, um homem a quem devo muito do que sei sobre animais selvagens e sobre caça grossa. Segundo Alberto me garantiu, Buluve tratava-se de um grande macho solitário, daqueles que na realidade “vinham de longe”, possivelmente o mesmo animal que era conhecido por “Tambor” e por “Tchindere”, noutras regiões por onde passava na sua rota que cobria vasto território. Era portador de grandes e pesadas presas de marfim e era bicho de um temperamento deveras agressivo. Continuamente perseguido pelos caçadores das áreas que percorria e muitas vezes por eles ferido, Buluve transformara-se numa fera assassina, atacando tudo e todos, mesmo pacíficas vacas que cruzassem o seu caminho. O próprio Alberto perseguira o grande macho, na companhia de Kaminino, um dos nomes mais sonantes entre os caçadores de elefantes daquela região e daquele tempo, mas nem a sua fantástica experiência, nem a velha .404 haviam sido capazes de  vencer o velho macho, causando-lhe apenas ferimentos que a Natureza acabava por curar. 

Outro grande caçador, o famoso John Cabral, um dos homens mais conhecidos no mundo da caça grossa Angolana, também fora responsável por ferimentos infligidos no “pai dos elefantes”, mas também ele não conseguira vencer a arte e a força do célebre paquiderme, qualidades a que alguns chamavam “feitiço”. 
O enorme elefante não vivia no Mamué. A área onde eu habitualmente caçava era apenas uma mais entre as muitas que percorria na sua constante deambulação. Aparecia nos meus domínios no final da época das chuvas, entrando entre Abril e Maio pelo Mulovei, percorria as faldas da Munda Evambo, ia até ao rio Tchival, passando depois pelo rio Mamué, desaparecendo finalmente na direcção do Camucuio. Chegou a visitar o Tchicangala e os plateaus da Arimba mas, habitualmente, não alcançava zonas tão distantes. 
Durante o tempo que permanecia na área andava de kacimba em kacimba, carregando pastores e gado, destruindo lavras de milho, de masango e de masambala, apesar dos esforços das pobres e assustadas gentes para o pôr em fuga. Buluve era, na realidade, o feitiço que chegava e partia com o vento. 
Naquele recuado ano de 1963 as últimas chuvas já tinham acabado e a vegetação amarelecia. Os rios voltavam a ser secos e o céu azul sem nuvens. O vento que vinha de Quilengues fustigava já as copas ainda verdes dos mutiatis e abanava as mukuas nos majestosos imbondeiros. Era o tempo do Buluve chegar! 
Desde a minha ida para o Mamué que sonhava com o grande elefante. Sabia que continuava vivo, na sua constante luta contra os caçadores que o perseguiam, já que o seu abate em terras do Camucuio, Quilengues, Impulo, Hanja, Coporolo, Calaanga ou Mulovei, seria notícia que chegaria célere e recheada de fantasia. Não se abatiam elefantes famosos sem que sobre eles os batuques espalhassem notícia para que a lenda surgisse e Buluve não seria excepção. A sua morte seria prontamente anunciada e a lenda do “elefante soba “, do “pai dos elefantes”, seria imediatamente cantada no seu reino. 

Numa manhã solarenga e luminosa, como eram todas as manhãs de Maio, a notícia tão esperada chegou, trazida por pastor coberto de suor, ofegante, mas orgulhoso por ter cumprido o seu dever. O grande elefante tinha bebido, na noite anterior, numa kacimba do Oncocua. 
Preparar o Land-Rover, algo para comer e uma garrafa térmica com café quente, foi obra de pouca mora. Uma hora depois já rolávamos na irregular picada, ora sentindo o carro vibrar sobre o piso pedregoso, ora ouvindo-o gemer nos areais das mulolas.
Chegados ao rio Oncocua fomos verificar a kacimba cavada no leito arenoso. A vedação protectora que protegia a kacimba, feita de ramos de espinheira “unha de gato” estava desfeita, e a escavação na areia, onde o gado bebia, estava assoreada pelas patorras de tamanho invulgar do grande macho. Pela primeira vez tinha contacto com indícios do “meu” elefante que era um animal de excepcional tamanho, a julgar pelo seu rasto.
A pata dianteira tão bem impressa no solo media mais de 63 centímetros de diâmetro, a maior que eu jamais vira, cujos contornos indefinidos na areia davam a ideia de ser ainda maior. Além das dimensões fora do comum, o rasto profundo mostrava que o animal era muito pesado. 
Estive a observar cuidadosamente e por algum tempo o rasto daquele colosso que, mal sabia ainda, viria a ser uma obsessão que me martirizou o espírito e o corpo por longo tempo. Imaginei-o enorme, o maior de todos e recapitulei rapidamente as informações que havia recolhido sobre ele. Embora não aceitasse como fidedigna a história das presas de marfim que tocavam no solo desejei, naquele momento, que tivesse marfim correspondente ao tamanho do seu rasto.
As pegadas confirmavam a informação do pastor Mukubal. O bicho estivera na kacimba aproximadamente à meia-noite e levava-nos alguma coisa como dez horas de avanço, o que nos dava, à partida, muitas probabilidades de falharmos a tentativa de alcançá-lo, mais ainda tratando-se de elefante velho e perseguido. Era efectivamente muito tarde para perseguições, mas o entusiasmo era grande e aquele não se tratava de um elefante qualquer.  

Na região do Mamué, o terreno irregular e pedregoso não permitia o uso do carro para perseguir elefantes pelo rasto. As perseguições tinham que ser realizadas totalmente a pé, por entre morros e vales, sob calor tórrido que provocava cansaço e sede, o que facilmente extenuaria quem não estivesse devidamente preparado fisicamente. Com os meus vinte e poucos anos, no entanto, não havia calor, nem sede, nem qualquer outro obstáculo que impedisse uma marcha de horas a fio através daquele mato ressequido e agreste e muito menos perseguindo o grande Buluve.
Pouco depois já caminhávamos no rasto a passo largo. Alberto, à cabeça da fila, trotando agilmente, com a sua inseparável catana e um cantil a tiracolo. Seguia-se-lhe o Luís, que transportava um garrafão de cinco litros com água, envolvido em serapilheira que pretendia conservar o liquido fresco. Com a carabina Westley Richard, calibre .375 H&H Magnum apoiada num ombro, eu era o terceiro da fila. Lá mais atrás, o pastor Mukubal trotava, ligeiro e fresco, sonhando com a carne que caminhava à nossa frente. 
Depressa percorremos a zona plana do vale do Mamué, corroída e gasta pela erosão, e iniciámos a subida pela encosta da primeira serra pedregosa, no rasto bem visível do paquiderme. Nos primeiros planaltos estivera entretido algum tempo com os ramos mais verdes e frescos de um frondoso mutiati e, mais além, deliciara-se com fibras retiradas do tronco de um pesado e retorcido imbondeiro. Esses indícios, contudo, não alteraram as esperanças no sucesso da caçada pois o rasto continuava “frio”. Apesar da esperança que nos animava, o avanço que nos levava era uma realidade.
Aqui e ali, punjas, kahines e ongires esgueiravam-se nas espessuras de “unha de gato” e uma manada de zebras de montanha olhou-nos, curiosa, entre erupções de quartzo esbranquiçado.

Às cinco da tarde chegámos a uma zona de muitos imbondeiros onde o elefante havia passado o período de maior calor. Pela posição da sombra projectada pelos descomunais troncos da mais corpulenta árvore africana, soubemos que o paquiderme saíra dali havia pelo menos três horas. Ainda tínhamos bastante tempo de luz e prosseguimos no rasto.
Antes que o sol desaparecesse no horizonte, porém, resolvemos desistir. Parte do caminho de regresso teria que ser feito já de noite e, além disso, o “vento” que tinha estado a nosso favor durante a tarde, mostrava-se agora pouco estável com a chegada da noite. O caminho de regresso foi extenuante, em absoluto silêncio, a um ritmo violento com que Alberto parecia querer castigar-nos pelo insucesso. Chegámos ao carro quando já era noite cerrada e a casa perto da meia-noite. 
O insucesso daquele dia não impediu que, na madrugada seguinte, quando ainda os galos não cantavam ao novo dia nos sambos próximos, já o Land-Rover roncasse pela picada a caminho do Oncocua, onde o Buluve poderia ter regressado para beber. 
No Oncocua, porém, não havia notícias do grande macho. Sem perdermos tempo prosseguimos viagem e, no sambo seguinte, encontrámos uma família de Mukubais acabada de despertar. Também eles não tinham informações que nos animassem. Na terceira kacimba, porém, quando já eram seis e meia, não foi necessário verificar o rasto na areia branca do rio. Pastores, falando com muitos gestos e poucas palavras, apontavam desesperados para o bebedouro do seu gado, reclamando o resultado do “trabalho” do rei dos elefantes. 
O rasto confirmava o que desejávamos saber. Buluve estivera ali havia um par de horas antes do romper do dia e a notícia animou-nos. A perseguição iniciou-se, imediatamente, sem a colaboração de pastores. Apenas o Alberto, o Luís e eu constituíamos a equipa.
Já passava do meio-dia quando encontrámos os primeiros sinais que nos garantiram o facto de o elefante ter feito uma refeição. Aos ziguezagues, andara de árvore em árvore, arrancando folhas tenras e galhos novos. Havia aí, também, bastante excremento e urina que emanavam um odor forte e característico. A mancha ainda húmida da urina absorvida no solo e o aspecto oleoso e brilhante do excremento garantiam a proximidade do paquiderme. Se tudo corresse bem, em breve iríamos ter a oportunidade de, finalmente, observar o grande macho solitário, avaliar o seu portentoso corpanzil e a qualidade de marfim que transportava. 
Não seriam ainda duas da tarde quando Alberto parou. Ouvira algo que lhe parecera o ruído de gases intestinais de um paquiderme. Como não foi possível confirmar a sua dúvida, prosseguimos no rasto, mais lentamente e com atenção redobrada. O “vento” estava perfeito, refrescando-nos agradavelmente a face molhada de suor. 

Ao cabo de cem metros saímos da mata desembocando num pequeno descampado rodeado de mutiatis, onde havia restos de um velho imbondeiro, junto a um cabeço de gigantescos pedregulhos. Ali, no solo semeado de pedras, havia sinais evidentes de espuma esbranquiçada, deixada pela urina que acabara de ser absorvida e excremento ainda morno, prova de que Alberto não se enganara. 
Avançámos com cautela, evitando ruídos e testando continuamente o “vento”. Dez minutos depois, não só os prodigiosos ouvidos do Alberto captaram de novo a “revolução intestinal” do paquiderme, como toda a equipa ouviu facilmente o borbulhar característico da sua enorme pança. 
Restava-me apenas localizá-lo, aproximar-me o mais possível e, por fim, fazer o tiro calmo e preciso que eu mentalmente planeara. Com Buluve não poderia facilitar e era neste ponto que se baseava o meu plano. Visaria o cérebro, se as condições o permitissem, ou optaria pela espádua, se não fosse possível uma boa aproximação. Nunca perdoaria a mim próprio perder a primeira oportunidade de vencer a peleja contra o “pai dos elefantes“.
Antes, porém, que o contacto acontecesse, senti uma traiçoeira frescura na nuca. A brisa mudara, repentinamente, ainda que por alguns segundos, tempo suficiente para alertar o grande guerreiro. A oitenta metros encontrámos provas da sua partida silenciosa, como que levado pelo vento, o mesmo vento que o trouxera das terras de Quilengues.
Insistimos no rasto e fomos encontrar novos sinais frescos já perto das seis horas da tarde, no exacto momento em que a brisa reapareceu em socorro do grande elefante, podendo alertá-lo a qualquer instante. Prosseguir no rasto equivaleria a perder uma vez mais a possibilidade de êxito, razão por que pensámos em recuar para posteriormente fazer uma aproximação com “vento” na cara, mas os escassos minutos de luz que nos restavam não seriam suficientes para levar a cabo tal plano. Foram minutos de angústia tê-lo ali perto, embora encoberto pela vegetação, e sentir-me impotente para me sobrepor aos poderes mágicos do grande macho. Naquele momento, sem qualquer dúvida, era ele que dominava a situação. 

A luz que nos restava tornara-se alaranjada, própria do poente africano, trazendo-nos temperaturas mornas que nos anunciavam a noite que iria ser fria. A brisa mantinha-se e, se por vezes era desejada, agora era a causa da nossa angústia. Vadia e inconstante, mudando de direcção constantemente, voando com o nosso cheiro para todo o lado e também, para onde o elefante descansava, feito árbitro do jogo. 
A meu lado, sentado e com as costas apoiadas no tronco de uma árvore, Alberto, de cabeça baixa, consultava continuamente o vento, deixando escapar pó que guardava na mão fechada, enquanto Luís olhava o céu, como que pedindo ajuda a Deus. Deitado de costas, eu sentia os primeiros sinais de cansaço, limpando o suor que me provocava ardores na pele irritada e cortada pelo capim e pelas espinheiras. 
A ideia do regresso longo não era de todo agradável, na escura noite que se aproximava, piorando todo o cenário o facto de termos sido vencidos de novo. Finalmente, contudo, convencidos de que o “vento”, naquele fim de dia, estava disposto a continuar a ser aliado do grande e velho senhor, decidimos iniciar o regresso ao carro, aproveitando a última claridade. Antes, porém, optámos pela aproximação, mesmo com a brisa soprando a favor do elefante, cientes do que aconteceria mas com a esperança que a sorte nos ajudasse.
Mas a sorte não nos ajudou. Momentos depois ouvimos o ruído abafado que o vento sabia fazer e que o Buluve tão bem imitava, que nos garantiu a confirmação do insucesso do lance. 
Aquela foi a última oportunidade de caçar o grande macho naquele ano. Não o vira, mas sentira-o tão próximo de mim que talvez o pudesse identificar pelo seu cheiro forte se um dia voltasse a ter a ventura de o ter por perto. Dias depois do meu fracasso, chegou-me a notícia de que alguém vira o rasto do “meu” elefante na picada entre o N’Dolondolo e o Camucuio... Era o adeus ao Buluve!

Foi no fim de Abril de 1964, ainda o mato estava coberto de verde, as espinheiras enfeitadas com flores amarelas e o granito nas serras coberto de musgo húmido, quando a primeira notícia do Buluve chegou ao Mamué. O meu bom e saudoso amigo John Cabral, o grande caçador das terras do Mulovei, chegou ao Chinkite com a boa nova. Ainda o estou a ver, sentado ao volante do seu Nissan-Patrol, sem capota, falando-me entusiasmado do tamanho do rasto daquele monstro que ele um dia ferira na sua fazenda de gado. 
No seu vozeirão confessou-me então:
- “Se não fossem aquelas balas velhas, garanto-te que esse “mamute” já não andava por aí às voltas. Mas agora, com a munição nova que recebi directamente da América, esse macharrão que se cuide!”
Disso não tinha eu dúvidas, o que me deixava deveras preocupado. Bons caçadores, da craveira do meu bom e saudoso amigo John Cabral havia poucos. Tivesse ele nova oportunidade de voltar a alvejá-lo e eu ficaria sem o “meu” elefante.
Ainda pensava no que ouvira quando o meu companheiro voltou à carga:
- “Aquele sim, miúdo, aquele é dos que vêm de longe, das chanas do Cuanhama ou mesmo do grande Tchimporo! E não penses que o Buluve é para os teus dentes... Para caçares coisas destas ainda te faltam muitos calos no rabo!”
Dias depois da visita do John, chegou-me um mensageiro enviado pelo Soba do Tchival. O grande macho estava de volta e bebera numa das kacimbas da sua gente, depois de matar duas vacas que atrevidamente não se haviam afastado do seu caminho. 
Se, na realidade, se encontrava no Tchival, isso significava que já passara pelo Mulovei sem ser notado, o que era pouco provável, ou durante uma ausência do John, possibilidade bem mais viável. De uma forma ou de outra, a notícia era óptima e eu não ia perder a oportunidade de voltar a tentar caçar o “meu” grande elefante.

O Land-Rover foi preparado e era tarde avançada quando partimos a caminho do rio Tchival, onde chegámos de madrugada. Acendemos a fogueira da praxe, comemos algo e depois de um café bem fresco e quente, descansámos sobre a areia do rio, na esperança de apanharmos o rasto do nosso elefante à primeira luz da manhã. 
Quando os galos começaram a cantar nos sambos próximos ainda não era dia, mas já a cafeteira rumorejava ao lume. E continuava a não ser dia quando iniciámos a busca, de curral em curral, de kacimba em kacimba. Não foi necessário ir muito longe, pois na segunda “água” recebemos a informação desejada da boca de pastor excitado. Buluve bebera na sua kacimba quando a noite ainda era nova. 
A falta de uma unha numa das patas era característica que ajudava a identificá-lo, mas bastavam as dimensões do seu rasto para não existirem quaisquer dúvidas. Era ele. Era o Buluve, era o “pai” e o “soba” dos elefantes.
Às seis da manhã metemo-nos pelo mato adentro, no rasto do elefante, uma vez mais com o coração cheio de esperança. 
Quando acabámos de subir a primeira colina, verificámos que o animal caminhava em linha recta, o que à partida era mau sinal, acompanhando durante cerca de dez quilómetros o curso do rio. Depois flectiu para sul, tomou o rumo da Munda Evambo e, só então, pareceu ter sido incomodado pela fome, esfarrapando um mutiati. Usou aí algum tempo na refeição que fez, mas não o suficiente para nos dar esperanças de o encontrar.  

Às cinco horas da tarde interrompemos a marcha. Àquela hora maravilhosa em que o sol enorme e vermelho transforma as tonalidades do céu, dando-lhe tons irreais da paleta de artista que sabe trabalhar cores berrantes, não tínhamos, todavia, boas notícias em relação ao Buluve. A Natureza presenteava-nos com mais um dos seus mais maravilhosos espectáculos mas, infelizmente, a realidade não nos permitia observações românticas. Sabíamos que, uma vez mais, teríamos que enfrentar o duro regresso ao carro, deixado lá longe, muito longe, na margem do rio Tchival. O regresso iniciou-se, pois, sob a atmosfera pesada que deprime os vencidos.
Não fosse a minha juventude e a vontade de vencer e não fosse o entusiasmo e o apoio da gente que me acompanhava e, provavelmente, jamais Buluve seria alvejado por uma das minhas balas. Era deprimente caminhar todos aqueles quilómetros, sob calor sufocante, sem obter resultados, vencer penosos regressos ao carro que parecia afastar-se à medida que nos aproximávamos, só porque, obcecadamente, queria caçar um elefante. Não se tratava obviamente de um elefante qualquer e sim do lendário Buluve, mas na vida existem limites para tudo. 
Quase desejei que o grande macho desaparecesse para sempre, que voltasse para o Mulovei e desse oportunidade ao John de experimentar as suas novas balas blindadas importadas da América, mas o sofrimento e o cansaço das grandes caminhadas depressa eram esquecidos e a saga do Buluve reaparecia, mais forte e mais intensa do que antes. 
Contrariamente ao habitual, o grande elefante, nesse ano, não seguiu a sua rota do costume. Enquanto o procurávamos em todo o vale do Mamué, recebemos notícias de que voltara para o Mulovei. A quebra de rotina do grande macho poderia significar que John Cabral não me concedesse mais oportunidades, fazendo uso da sua longa experiência, e vieram-me à mente os meus desabafos durante as longas e extenuantes caminhadas, sobre o falso propósito de não continuar a saga do Buluve, desejando que o solitário voltasse a terras do Mulovei e fosse abatido pelo John. O meu pensamento causou-me arrepios. 
Que desabafos mais estúpidos, pensei em silêncio! Buluve era o “meu” elefante e um dia nem o “vento” o salvaria, mesmo que tivesse de caminhar dez dias seguidos! 
Foi em verdadeiro pânico que aguardei informações sobre o elefante, mas nada me constou durante o resto do ano, facto que me tranquilizou. Se John o tivesse abatido, a notícia teria chegado antes que eu a desejasse receber, rápida como um raio e condimentada à moda africana para lhe dar mais sabor. No mato era assim. Sem telefones e sem telégrafos, as notícias voavam transpondo distâncias brutais e, quando chegavam ao destino, algumas soavam a falso transformadas em patranhas que ultrapassavam os limites do razoável e outras davam origem às lendas tão comuns em África que, normalmente, envolvem bichos medonhos e homens que os perseguem. 

1965 chegou. Chovia torrencialmente na região do Mamué. Nos rios secos da época do kacimbo, corriam agora caudais torrenciais de águas barrentas e turbulentas, interrompendo o trânsito nas poucas vias que nos ligavam ao mundo civilizado. O uso do Land-Rover, apesar da tracção às quatro rodas e da caixa com velocidades reduzidas, estava muito condicionado, quer pelas enxurradas, quer pelos frequentes lamaçais. 
Em breve os tons de verde imperariam nas paisagens acidentadas e os mutiatis receberiam nova folhagem, depois da sede passada e do ataque do mahungo. O capim novo atingiria o seu máximo crescimento e espigaria, entre tapetes de flores, e os morros semeados de blocos de granito e de quartzo pareceriam jardins. Era a explosão de beleza que as chuvas ofereciam àquele mato africano, devolvendo-lhe as cores que lhe tinham sido roubadas pelo kacimbo. 
Rapidamente, como se a natureza se condoesse com o sofrimento dos seres vivos daquelas inóspitas paragens, num milagre de vida, do solo castigado pela sede e massacrado pelos cascos e patas dos animais surgiria um manto de kalaviri esverdeado e fresco, que em breve se cobriria de tapetes de pequenas flores brancas e amarelas. Em poucos dias as zebras abandonariam as serranias, onde algum pasto ressequido sobrevivera ao castigo do rei dos trópicos e, mais roliças do que nunca, cruzariam as planícies em louco tropel, os ongires, com as costelas a romperem a pele não largariam as espinheiras “unha de gato”, agora cobertas de folhas novas e apetitosas, as impalas de face negra, com os seus magníficos saltos, iriam engordar e dar movimento ao quadro até há pouco triste, as gungas, pesadas mas ágeis, agrupar-se-iam em manadas enormes, dividindo o seu tempo entre as serras e os vales, pastando sem cessar, e os facocheros pareceriam mascarados com os corpos cobertos de lama vermelha. Nos “plateaus” da Arimba, as cabras de leque e os guelengues do deserto desforrar-se-iam da falta de capim da última seca e, nos vales das serranias pedregosas, os elefantes, cuja pele nua parecia mais áspera e gretada pela força do sol impiedoso, revolver-se-iam nas lagoas lamacentas, em busca de frescura e de protecção contra os insectos. 

A forte época pluviosa terminou, contudo, não respeitando o calendário. Em meados de Março já as lamas haviam secado, os rios haviam deixado de correr e, nos morros, já não brilhavam os fios de água que antes serpenteavam entre os blocos de pedra. O que ficara, como herança das brutais chuvadas, eram as rudimentares picadas cortadas e esburacadas a precisarem de reparação urgente. 
Uma equipa de trabalhadores foi colocada em cada picada e quando, nos primeiros dias de Abril fui levar alimentação a uma das frentes de trabalho, encontrei no troço do Oncocua rastos de um solitário que marcara bem a sua passagem sobre o areal da mulola. 
Saltámos do carro e eu senti o coração acelerar, parecendo querer saltar-me do peito. Aquele era o rasto do Buluve! Tão grande, não podia pertencer a outro elefante. E, quando finalmente observei o rasto de perto, lá estava a marca inconfundível da falta da unha numa das patas.
Para que a excitação fosse ainda maior, o rasto era fresco. O elefante teria ali passado duas ou três horas antes, o que, em princípio, era uma notícia fantástica.
Na companhia do Alberto e do Luís, deixei o Land-Rover, com o coração a explodir de excitação, seguindo o rasto do “meu” elefante. Nas mãos segurava a Westley Richard .375 Magnum. 

Eram nove horas da manhã e, pelas nossas contas, o grande elefante teria atravessado a picada por volta das sete, o que nos dava uma enorme vantagem em termos de tempo e um grande optimismo em termos do êxito da caçada. A brisa, ainda fresca, fustigava-me a cara, parecendo ter sido encomendado por medida, embora fosse o factor que mais me preocupava, pensando nas muitas vezes que me atraiçoara.
A mata era de mutiatis, com maciços de espinheira “unha de gato”. De quando em quando um imbondeiro, alto e majestoso, qual sentinela do mato, desenhava-se com os seus grotescos troncos contra o céu azul, ainda cobertos de folhas e suportando, aqui e ali, mukuas que balançavam ao sabor da brisa matinal. 
O elefante caminhava calmamente. Na primeira hora de marcha encontrámos sinais de três paragens para se alimentar fartamente de ramos e folhas e, ao fim de mais meia hora de marcha, demos com sinais da proximidade do macho. Havia ali folhas verdes a atapetarem o solo, restos de ramos arrancados e mastigados, havia cilindros de excremento ainda quentes e urina que o solo absorvera mas mantinha à superfície uma espuma esbranquiçada. 
Foi com verdadeira alegria que retirei o dedo de um dos cilindros de excremento, confirmando a temperatura do mesmo. Quente como estava, significava que estávamos finalmente em cima dele. Enquanto progredíamos testávamos a brisa, uma vez, muitas vezes, para garantirmos a sua cumplicidade. Quase não respirávamos, para melhor ouvirmos o elefante ou com receio que ele nos ouvisse. 
O silêncio era quebrado, de quando em vez, pelo piar indesejado de algum onkuele, “sentinela” ao serviço dos animais em África quando o perigo os ronda, mas aquela ave era tão abundante naquela área e a sua cantoria tão comum que nenhum elefante acreditaria no seu aviso.Prosseguimos ainda, sempre no máximo silêncio que a marcha permitia e escassos minutos depois Alberto estacou, com os braços esticados para trás. Como eu desejara, em dias passados durante perseguições sem sucesso na pista do Buluve, ver o meu companheiro naquela posição.
Sem me mover, a seu lado, tentava sem êxito ver o colosso na densa folhagem que nos rodeava, como uma muralha verde, onde o bicho se protegia. Mais um e ainda outro passo e, então sim, ali mesmo, parcialmente encoberto por ramagens, Buluve, o “pai dos elefantes”, o “soba” de todos eles, de frente para nós, arrancava um ramo e levava-o à boca, com a ajuda da possante tromba.

Noutra ocasião e com outro elefante talvez tivesse arriscado o tiro de frente, como já fizera algumas vezes, mas bons conselhos me haviam dito que o tiro frontal a um elefante pode ser problemático, sempre e quando o projéctil se perca nos favos ósseos do imenso crânio, sem atingir o cérebro. Utilizar esse conselho foi uma forma de ter o meu pai presente naquele momento tão especial da minha vida e da carreira de caçador.  
Alberto, abaixado à minha frente, olhava extasiado para o grande macho. Eu, também embriagado por aquela fabulosa visão, observava o “meu” elefante, responsável por tantas horas de sono perdido, tantas horas de caminhadas extenuantes, tantas horas de viagem e tantas horas de sonhos. Sonhos que me assaltavam enquanto dormia e sonhos que me roubavam o sono.  
Naquele preciso momento, de um lado estava eu, com a minha fiel .375 nas mãos, e do outro estava o Buluve, poderosamente armado com os seus sentidos super desenvolvidos. Pelo meio, feito árbitro, soprava suavemente o “vento”, capaz de ajudar um ou o outro, capaz de eleger o vencedor ou de apontar o vencido.
Alberto não percebia bem a razão por que eu não disparava, tendo o bicho tão cobiçado ali mesmo, à minha frente, mas eu não queria fazê-lo enquanto não tivesse absoluta certeza sobre os efeitos que o meu tiro pudesse produzir. 
Talvez estivéssemos ali cinco minutos, frente a frente, ou talvez fossem dez. Ou mesmo mais do que isso. Na verdade nunca poderia ter estabelecido uma relação entre aquele tempo, que era o meu, e o outro, o tempo que pertencia ao relógio do mundo dos homens. Sabia apenas que deveria aguardar o tempo necessário para que o elefante se movesse e me permitisse ângulo para realizar tiro seguro e eficaz. 
Existia, obviamente, a hipótese do “vento” mudar e alertar o sensível e apurado olfacto do grande macho, denunciando a nossa presença, mas naquele exacto momento eu estava tão fascinado com a imagem do soberbo animal que não ponderei esse possível contratempo. 

Por fim, sem deslealdades da brisa, o colosso deslocou-se um pouco, dando-me o flanco. Apontei bem. Estava nervoso e disso tenho absoluta consciência. Simultaneamente, porém, senti-me confiante e não duvidei do resultado que obteria com o meu tiro. Conhecia aquela carabina como conhecia a palma da minha própria mão e, àquela reduzida distância, não haveria forma de errar o cérebro do “meu” elefante.
Confirmei a pontaria. Fui obrigado a controlar-me, porque sentia o coração a saltar-me do peito e as fontes a latejar mas, finalmente, consegui fazer coincidir a alça e a mira com o ouvido do paquiderme.
O tiro partiu, enfim, soando forte na mata de mutiatis. Ouvi o impacto da bala e o ruído característico do projéctil rompendo caminho na massa óssea do crânio do elefante e, entretanto, introduzi outro cartucho na câmara para qualquer eventualidade. 
Não foi necessário um segundo tiro. O colosso arreou os quartos traseiros, continuando por segundos com as patas dianteiras retesadas, jorrou golfadas de sangue pela tromba e, lentamente, afundou-se. Era o fim do grande Buluve!
Corri direito a ele e, à queima-roupa, então sim, coloquei-lhe uma bala no coração, talvez desnecessariamente, mas a experiência cedo me começou a dar bons conselhos.
Embora não correspondesse ao tamanho das patas, o bruto carregava bom marfim. Uma das presas estava quebrada, pesando 22 kg, mas a outra, longa e perfeita, chegava aos 42. Marfim desse peso, no Mamué, era tão raro como um diamante de Maludi (zona da concessão da DIAMANG que produzia diamantes azuis). 

A notícia correu célere e, poucas horas depois, dezenas de Mukubais e Mukuandos rodeavam a carcaça do grande elefante, acompanhados de mulheres e crianças. Entre grande alarido sentavam os filhos pequenos sobre o corpo do animal para lhes dar força, sabedoria e potência sexual. 
Mal terminámos a habitual sessão fotográfica, os homens principiaram a operação de esquartejamento, enquanto assavam carne em fogueiras bem ateadas e dançavam entoando canções criadas para as grandes ocasiões. As mulheres rodeavam a carcaça, atestando kindas com carne fresca, enquanto as crianças corriam barulhentas e felizes.
A noite chegou e ainda gente trabalhava arduamente na carcaça do elefante, iluminada por reflexos sanguíneos do fogo alimentado por lenha de mutiati. Eu continuava extasiado com o lance vivido e foi então que ouvi, pela primeira vez, a canção que entoavam e que, de alguma forma, cadenciava o ritmo dos golpes das afiadas mutungas e dos eficientes javites. Nssa canção, os homens sussurravam com frequência as palavras Buluve e Mundjamba.  
Nos serões ao som do batuque, nas longínquas paragens do Mamué, que um dia foram palco de muitas caçadas, a lenda do Buluve será tema de histórias do passado, que os velhos, acocorados à volta da fogueira, contarão às gerações vindouras. E nesses mesmos serões, será com certeza recordado o nome de um sertanejo, que foi também caçador, a quem as gentes Africanas chamaram “Mundjamba”, o homem que venceu o Buluve e que, talvez por isso, ficou conhecido pela “Montanha dos Elefantes”.

Hugo Seia

 

  • email Email para Amigo
  • print Versão de Impressão
  • Plain text Versão Texto
BancoBIC
0