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Buluve, o “Pai” dos elefantes (Parte II)

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Foi no fim de Abril de 1964, ainda o mato estava coberto de verde, as espinheiras enfeitadas com flores amarelas e o granito nas serras coberto de musgo húmido, quando a primeira notícia do Buluve chegou ao Mamué. O meu bom e saudoso amigo John Cabral, o grande caçador das terras do Mulovei, chegou ao Chinkite com a boa nova.

 

Ainda o estou a ver, sentado ao volante do seu Nissan-Patrol, sem capota, falando-me entusiasmado do tamanho do rasto daquele monstro que ele um dia ferira na sua fazenda de gado. 

No seu vozeirão confessou-me então:
- “Se não fossem aquelas balas velhas, garanto-te que esse “mamute” já não andava por aí às voltas. Mas agora, com a munição nova que recebi directamente da América, esse macharrão que se cuide!”

Disso não tinha eu dúvidas, o que me deixava deveras preocupado. Bons caçadores, da craveira do meu bom e saudoso amigo John Cabral havia poucos. Tivesse ele nova oportunidade de voltar a alvejá-lo e eu ficaria sem o “meu” elefante.

Ainda pensava no que ouvira quando o meu companheiro voltou à carga:
- “Aquele sim, miúdo, aquele é dos que vêm de longe, das chanas do Cuanhama ou mesmo do grande Tchimporo! E não penses que o Buluve é para os teus dentes... Para caçares coisas destas ainda te faltam muitos calos no rabo!”  

Dias depois da visita do John, chegou-me um mensageiro enviado pelo Soba do Tchival. O grande macho estava de volta e bebera numa das kacimbas da sua gente, depois de matar duas vacas que atrevidamente não se haviam afastado do seu caminho. 
Se, na realidade, se encontrava no Tchival, isso significava que já passara pelo Mulovei sem ser notado, o que era pouco provável, ou durante uma ausência do John, possibilidade bem mais viável. De uma forma ou de outra, a notícia era óptima e eu não ia perder a oportunidade de voltar a tentar caçar o “meu” grande elefante.

O Land-Rover foi preparado e era tarde avançada quando partimos a caminho do rio Tchival, onde chegámos de madrugada. Acendemos a fogueira da praxe, comemos algo e depois de um café bem fresco e quente, descansámos sobre a areia do rio, na esperança de apanharmos o rasto do nosso elefante à primeira luz da manhã. 

Quando os galos começaram a cantar nos sambos próximos ainda não era dia, mas já a cafeteira rumorejava ao lume. E continuava a não ser dia quando iniciámos a busca, de curral em curral, de kacimba em kacimba. Não foi necessário ir muito longe, pois na segunda “água” recebemos a informação desejada da boca de pastor excitado. Buluve bebera na sua kacimba quando a noite ainda era nova. 

A falta de uma unha numa das patas era característica que ajudava a identificá-lo, mas bastavam as dimensões do seu rasto para não existirem quaisquer dúvidas. Era ele. Era o Buluve, era o “pai” e o “soba” dos elefantes.
Às seis da manhã metemo-nos pelo mato adentro, no rasto do elefante, uma vez mais com o coração cheio de esperança. 
Quando acabámos de subir a primeira colina, verificámos que o animal caminhava em linha recta, o que à partida era mau sinal, acompanhando durante cerca de dez quilómetros o curso do rio. Depois flectiu para sul, tomou o rumo da Munda Evambo e, só então, pareceu ter sido incomodado pela fome, esfarrapando um mutiati. Usou aí algum tempo na refeição que fez, mas não o suficiente para nos dar esperanças de o encontrar.  

Às cinco horas da tarde interrompemos a marcha. Àquela hora maravilhosa em que o sol enorme e vermelho transforma as tonalidades do céu, dando-lhe tons irreais da paleta de artista que sabe trabalhar cores berrantes, não tínhamos, todavia, boas notícias em relação ao Buluve. A Natureza presenteava-nos com mais um dos seus mais maravilhosos espectáculos mas, infelizmente, a realidade não nos permitia observações românticas. Sabíamos que, uma vez mais, teríamos que enfrentar o duro regresso ao carro, deixado lá longe, muito longe, na margem do rio Tchival. O regresso iniciou-se, pois, sob a atmosfera pesada que deprime os vencidos.
Não fosse a minha juventude e a vontade de vencer e não fosse o entusiasmo e o apoio da gente que me acompanhava e, provavelmente, jamais Buluve seria alvejado por uma das minhas balas. Era deprimente caminhar todos aqueles quilómetros, sob calor sufocante, sem obter resultados, vencer penosos regressos ao carro que parecia afastar-se à medida que nos aproximávamos, só porque, obcecadamente, queria caçar um elefante. Não se tratava obviamente de um elefante qualquer e sim do lendário Buluve, mas na vida existem limites para tudo. 

Quase desejei que o grande macho desaparecesse para sempre, que voltasse para o Mulovei e desse oportunidade ao John de experimentar as suas novas balas blindadas importadas da América, mas o sofrimento e o cansaço das grandes caminhadas depressa eram esquecidos e a saga do Buluve reaparecia, mais forte e mais intensa do que antes. 
Contrariamente ao habitual, o grande elefante, nesse ano, não seguiu a sua rota do costume. Enquanto o procurávamos em todo o vale do Mamué, recebemos notícias de que voltara para o Mulovei. A quebra de rotina do grande macho poderia significar que John Cabral não me concedesse mais oportunidades, fazendo uso da sua longa experiência, e vieram-me à mente os meus desabafos durante as longas e extenuantes caminhadas, sobre o falso propósito de não continuar a saga do Buluve, desejando que o solitário voltasse a terras do Mulovei e fosse abatido pelo John. O meu pensamento causou-me arrepios. 

Que desabafos mais estúpidos, pensei em silêncio! Buluve era o “meu” elefante e um dia nem o “vento” o salvaria, mesmo que tivesse de caminhar dez dias seguidos!
Foi em verdadeiro pânico que aguardei informações sobre o elefante, mas nada me constou durante o resto do ano, facto que me tranquilizou. Se John o tivesse abatido, a notícia teria chegado antes que eu a desejasse receber, rápida como um raio e condimentada à moda africana para lhe dar mais sabor. No mato era assim. Sem telefones e sem telégrafos, as notícias voavam transpondo distâncias brutais e, quando chegavam ao destino, algumas soavam a falso transformadas em patranhas que ultrapassavam os limites do razoável e outras davam origem às lendas tão comuns em África que, normalmente, envolvem bichos medonhos e homens que os perseguem. 

1965 chegou. Chovia torrencialmente na região do Mamué. Nos rios secos da época do kacimbo, corriam agora caudais torrenciais de águas barrentas e turbulentas, interrompendo o trânsito nas poucas vias que nos ligavam ao mundo civilizado. O uso do Land-Rover, apesar da tracção às quatro rodas e da caixa com velocidades reduzidas, estava muito condicionado, quer pelas enxurradas, quer pelos frequentes lamaçais. 

Em breve os tons de verde imperariam nas paisagens acidentadas e os mutiatis receberiam nova folhagem, depois da sede passada e do ataque do mahungo. O capim novo atingiria o seu máximo crescimento e espigaria, entre tapetes de flores, e os morros semeados de blocos de granito e de quartzo pareceriam jardins. Era a explosão de beleza que as chuvas ofereciam àquele mato africano, devolvendo-lhe as cores que lhe tinham sido roubadas pelo kacimbo. 
Rapidamente, como se a natureza se condoesse com o sofrimento dos seres vivos daquelas inóspitas paragens, num milagre de vida, do solo castigado pela sede e massacrado pelos cascos e patas dos animais surgiria um manto de kalaviri esverdeado e fresco, que em breve se cobriria de tapetes de pequenas flores brancas e amarelas. Em poucos dias as zebras abandonariam as serranias, onde algum pasto ressequido sobrevivera ao castigo do rei dos trópicos e, mais roliças do que nunca, cruzariam as planícies em louco tropel, os ongires, com as costelas a romperem a pele não largariam as espinheiras “unha de gato”, agora cobertas de folhas novas e apetitosas, as impalas de face negra, com os seus magníficos saltos, iriam engordar e dar movimento ao quadro até há pouco triste, as gungas, pesadas mas ágeis, agrupar-se-iam em manadas enormes, dividindo o seu tempo entre as serras e os vales, pastando sem cessar, e os facocheros pareceriam mascarados com os corpos cobertos de lama vermelha. Nos “plateaus” da Arimba, as cabras de leque e os guelengues do deserto desforrar-se-iam da falta de capim da última seca e, nos vales das serranias pedregosas, os elefantes, cuja pele nua parecia mais áspera e gretada pela força do sol impiedoso, revolver-se-iam nas lagoas lamacentas, em busca de frescura e de protecção contra os insectos. 

A forte época pluviosa terminou, contudo, não respeitando o calendário. Em meados de Março já as lamas haviam secado, os rios haviam deixado de correr e, nos morros, já não brilhavam os fios de água que antes serpenteavam entre os blocos de pedra. O que ficara, como herança das brutais chuvadas, eram as rudimentares picadas cortadas e esburacadas a precisarem de reparação urgente. 

Hugo Seia

 

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