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Buluve, o “Pai” dos elefantes (parte III)

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Uma equipa de trabalhadores foi colocada em cada picada e quando, nos primeiros dias de Abril fui levar alimentação a uma das frentes de trabalho, encontrei no troço do Oncocua rastos de um solitário que marcara bem a sua passagem sobre o areal da mulola.

 

Saltámos do carro e eu senti o coração acelerar, parecendo querer saltar-me do peito. Aquele era o rasto do Buluve! Tão grande, não podia pertencer a outro elefante. E, quando finalmente observei o rasto de perto, lá estava a marca inconfundível da falta da unha numa das patas.
Para que a excitação fosse ainda maior, o rasto era fresco. O elefante teria ali passado duas ou três horas antes, o que, em princípio, era uma notícia fantástica.
Na companhia do Alberto e do Luís, deixei o Land-Rover, com o coração a explodir de excitação, seguindo o rasto do “meu” elefante. Nas mãos segurava a Westley Richard .375 Magnum. 
Eram nove horas da manhã e, pelas nossas contas, o grande elefante teria atravessado a picada por volta das sete, o que nos dava uma enorme vantagem em termos de tempo e um grande optimismo em termos do êxito da caçada. A brisa, ainda fresca, fustigava-me a cara, parecendo ter sido encomendado por medida, embora fosse o factor que mais me preocupava, pensando nas muitas vezes que me atraiçoara.

A mata era de mutiatis, com maciços de espinheira “unha de gato”. De quando em quando um imbondeiro, alto e majestoso, qual sentinela do mato, desenhava-se com os seus grotescos troncos contra o céu azul, ainda cobertos de folhas e suportando, aqui e ali, mukuas que balançavam ao sabor da brisa matinal. 
O elefante caminhava calmamente. Na primeira hora de marcha encontrámos sinais de três paragens para se alimentar fartamente de ramos e folhas e, ao fim de mais meia hora de marcha, demos com sinais da proximidade do macho. Havia ali folhas verdes a atapetarem o solo, restos de ramos arrancados e mastigados, havia cilindros de excremento ainda quentes e urina que o solo absorvera mas mantinha à superfície uma espuma esbranquiçada. 
Foi com verdadeira alegria que retirei o dedo de um dos cilindros de excremento, confirmando a temperatura do mesmo. Quente como estava, significava que estávamos finalmente em cima dele. Enquanto progredíamos testávamos a brisa, uma vez, muitas vezes, para garantirmos a sua cumplicidade. Quase não respirávamos, para melhor ouvirmos o elefante ou com receio que ele nos ouvisse. 

O silêncio era quebrado, de quando em vez, pelo piar indesejado de algum onkuele, “sentinela” ao serviço dos animais em África quando o perigo os ronda, mas aquela ave era tão abundante naquela área e a sua cantoria tão comum que nenhum elefante acreditaria no seu aviso.
Prosseguimos ainda, sempre no máximo silêncio que a marcha permitia e escassos minutos depois Alberto estacou, com os braços esticados para trás. Como eu desejara, em dias passados durante perseguições sem sucesso na pista do Buluve, ver o meu companheiro naquela posição
Sem me mover, a seu lado, tentava sem êxito ver o colosso na densa folhagem que nos rodeava, como uma muralha verde, onde o bicho se protegia. Mais um e ainda outro passo e, então sim, ali mesmo, parcialmente encoberto por ramagens, Buluve, o “pai dos elefantes”, o “soba” de todos eles, de frente para nós, arrancava um ramo e levava-o à boca, com a ajuda da possante tromba.
Noutra ocasião e com outro elefante talvez tivesse arriscado o tiro de frente, como já fizera algumas vezes, mas bons conselhos me haviam dito que o tiro frontal a um elefante pode ser problemático, sempre e quando o projéctil se perca nos favos ósseos do imenso crânio, sem atingir o cérebro. Utilizar esse conselho foi uma forma de ter o meu pai presente naquele momento tão especial da minha vida e da carreira de caçador.  
Alberto, abaixado à minha frente, olhava extasiado para o grande macho. Eu, também embriagado por aquela fabulosa visão, observava o “meu” elefante, responsável por tantas horas de sono perdido, tantas horas de caminhadas extenuantes, tantas horas de viagem e tantas horas de sonhos. Sonhos que me assaltavam enquanto dormia e sonhos que me roubavam o sono. Naquele preciso momento, de um lado estava eu, com a minha fiel .375 nas mãos, e do outro estava o Buluve, poderosamente armado com os seus sentidos super desenvolvidos. Pelo meio, feito árbitro, soprava suavemente o “vento”, capaz de ajudar um ou o outro, capaz de eleger o vencedor ou de apontar o vencido.
Alberto não percebia bem a razão por que eu não disparava, tendo o bicho tão cobiçado ali mesmo, à minha frente, mas eu não queria fazê-lo enquanto não tivesse absoluta certeza sobre os efeitos que o meu tiro pudesse produzir. 
Talvez estivéssemos ali cinco minutos, frente a frente, ou talvez fossem dez. Ou mesmo mais do que isso. Na verdade nunca poderia ter estabelecido uma relação entre aquele tempo, que era o meu, e o outro, o tempo que pertencia ao relógio do mundo dos homens. Sabia apenas que deveria aguardar o tempo necessário para que o elefante se movesse e me permitisse ângulo para realizar tiro seguro e eficaz. 

Existia, obviamente, a hipótese do “vento” mudar e alertar o sensível e apurado olfacto do grande macho, denunciando a nossa presença, mas naquele exacto momento eu estava tão fascinado com a imagem do soberbo animal que não ponderei esse possível contratempo.
Por fim, sem deslealdades da brisa, o colosso deslocou-se um pouco, dando-me o flanco. Apontei bem. Estava nervoso e disso tenho absoluta consciência. Simultaneamente, porém, senti-me confiante e não duvidei do resultado que obteria com o meu tiro. Conhecia aquela carabina como conhecia a palma da minha própria mão e, àquela reduzida distância, não haveria forma de errar o cérebro do “meu” elefante.
Confirmei a pontaria. Fui obrigado a controlar-me, porque sentia o coração a saltar-me do peito e as fontes a latejar mas, finalmente, consegui fazer coincidir a alça e a mira com o ouvido do paquiderme. 
O tiro partiu, enfim, soando forte na mata de mutiatis. Ouvi o impacto da bala e o ruído característico do projéctil rompendo caminho na massa óssea do crânio do elefante e, entretanto, introduzi outro cartucho na câmara para qualquer eventualidade. 
Não foi necessário um segundo tiro. O colosso arreou os quartos traseiros, continuando por segundos com as patas dianteiras retesadas, jorrou golfadas de sangue pela tromba e, lentamente, afundou-se. Era o fim do grande Buluve.
Corri direito a ele e, à queima-roupa, então sim, coloquei-lhe uma bala no coração, talvez desnecessariamente, mas a experiência cedo me começou a dar bons conselhos.
Embora não correspondesse ao tamanho das patas, o bruto carregava bom marfim. Uma das presas estava quebrada, pesando 22 kg, mas a outra, longa e perfeita, chegava aos 42. Marfim desse peso, no Mamué, era tão raro como um diamante de Maludi (zona da concessão da DIAMANG que produzia diamantes azuis). 
A notícia correu célere e, poucas horas depois, dezenas de Mukubais e Mukuandos rodeavam a carcaça do grande elefante, acompanhados de mulheres e crianças. Entre grande alarido sentavam os filhos pequenos sobre o corpo do animal para lhes dar força, sabedoria e potência sexual. 
Mal terminámos a habitual sessão fotográfica, os homens principiaram a operação de esquartejamento, enquanto assavam carne em fogueiras bem ateadas e dançavam entoando canções criadas para as grandes ocasiões. As mulheres rodeavam a carcaça, atestando kindas com carne fresca, enquanto as crianças corriam barulhentas e felizes.

A noite chegou e ainda gente trabalhava arduamente na carcaça do elefante, iluminada por reflexos sanguíneos do fogo alimentado por lenha de mutiati. Eu continuava extasiado com o lance vivido e foi então que ouvi, pela primeira vez, a canção que entoavam e que, de alguma forma, cadenciava o ritmo dos golpes das afiadas mutungas e dos eficientes javites. Nssa canção, os homens sussurravam com frequência as palavras Buluve e Mundjamba.  
Nos serões ao som do batuque, nas longínquas paragens do Mamué, que um dia foram palco de muitas caçadas, a lenda do Buluve será tema de histórias do passado, que os velhos, acocorados à volta da fogueira, contarão às gerações vindouras. E nesses mesmos serões, será com certeza recordado o nome de um sertanejo, que foi também caçador, a quem as gentes Africanas chamaram “Mundjamba”, o homem que venceu o Buluve e que, talvez por isso, ficou conhecido pela “Montanha dos Elefantes”.

Hugo Seia

 

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