Ecos de Macau: o Rescaldo
Chega esta altura do ano e tento sempre traçar um balanço do que se passou. Faço comparações, desejos e promessas de que tudo será diferente assim que o ano novo chegar. E não sou a única – de certeza que os leitores também o fazem.
Desde logo, contrariamente ao que tinha pensado, continuo a morar em Macau. Continuo a aprender coisas novas todos os dias e a sentir que a minha vida ganhou uma dimensão além-fronteiras a partir do momento em que pisei esta terra meio chinesa, meio portuguesa. E eu que pensava ficar por apenas dois anos, deixei-me ficar, neste rebuliço de ideias e projectos.
Mas o que nunca tinha sentido até ao início deste ano de crise económico-financeira foi que permaneço em Macau, neste meu lugar que já me habituei a chamar de lar, porque regressar a Portugal para junto da família parece um cenário cada vez mais difícil. Porque a crise que se começou a falar no início do ano parece agudizar-se e a solução Troika, pelo menos por agora, continua a não parecer uma solução.
De lá ouço as mais diferentes queixas, como não poderia deixar de ser, tal é a dimensão de crise económico-financeira. “Perdi o emprego, arranjas-me emprego aí? Vão cortar-me os subsídios! Reduziram-me o salário!” Bolas! E o sol, a luz, a comida, as pessoas calorosas, a cultura de que me lembro?
Perdida nesta terra do Oriente onde o excedente orçamental é milionário, não consigo parar de pensar no eterno défice que persiste em Portugal. Aqui dão-nos cheques todos os anos, dado o excedente orçamental. Por lá, cortam os subsídios.
Perco-me no meio destes números que acabam por dominar as nossas conversas e, até, os nossos sentimentos. E acabo por me sentir feliz por aqui estar, neste conforto. Mas, às vezes, sobretudo quando chega esta altura de calor familiar, o Natal, não consigo deixar de pensar: “E o sol, a luz, a comida, as pessoas calorosas, a cultura de que me lembro?”







