“Acredito que tenha nascido para isto”, Lura
Na Alameda, Lisboa, Lura ia dar um concerto inserido nas “Festas de Lisboa 2010”. Antes, ainda teve tempo para uma animada conversa com a África Today. Música, claro, mas também as raízes, referências, preferências e…os voos caros para Cabo Verde estiveram na agenda da conversa.
O que anda a ouvir no carro? Ui, tanta coisa, tanta mistura. Ando a ouvir Buíca, Angélique Kidjo, Bulimundo, Rui Veloso. Oiço algumas destas coisas no carro, mas depois chego a casa e já estou a ouvir outros músicos e bandas. Ah, também ando a ouvir Dianne Reeves. Mas vou alternando. Há momentos em que passo muito tempo sem ouvir música. Nesses momentos só me apetece silêncio. Leio. Viajo um pouco. Fico no meu mundo.
O que é a música para si?
É uma missão. Acredito que tenha nascido para isto (risos). Acho que me colocaram aqui na Terra para ser cantora. A Lura tinha de ser cantora.
E quando é que percebeu isso?
Percebi quando estava a tirar um curso de desporto. Nunca imaginei ser cantora. Houve um dia em que fui convidada para cantar. Fiquei, como é óbvio, bastante surpresa. Disse para mim própria: Eu? Não, não pode ser. Devem-me estar a confundir com alguém. Eu não canto, nem nunca experimentei. De repente oiço a minha voz e foi a surpresa geral. Gritei: olha, sei cantar! Assim, do nada, já estava com uma série de responsabilidades musicais. Foi um choque, porque não era o sonho de menina. A música apareceu na minha vida. Foi mais isso.
Nasceu em 1975, ano da independência de Cabo Verde. Pensa nisso? Transporta isso para a sua música…
Penso nisso e fico contente por isso. Costumo ficar muito vaidosa com essa coincidência. Há poucos dias, numa visita de Estado a Cabo Verde, as pessoas perguntavam-me isso mesmo. Dizia-lhes, em resposta a essa questão, que tive azar e não nasci a dia 5 de Julho, dia da independência, mas sim uns dias antes (risos).
Teve algum tipo de inspiração quando começou a cantar?
Ninguém em particular. Ouvia música de Cabo Verde em casa. Eram os meus pais os apreciadores e, portanto, eram eles que metiam os discos a rodar lá em casa. Ouvia-se muito Luis Morais, Bana e Cesária Évora, mas não achava piada nenhuma. Dizia sempre: “Como é que eles gostam deste tipo de música? (risos)”
O que ouvia, então, na adolescência?
Ouvia a música que passava na televisão, mais pop. Ouvia Stevie Wonder, não querendo catalogá-lo de artista pop, já que é um grande senhor da música. É na altura do “I just call to say I love you”. Michael Jackson, apesar de ter havido aí um período em que não ficava muito bem dizer que éramos fãs do Jackson. Mas lembro-me que na minha rua todos os miúdos tentavam imitá-lo. Era giro ver isso. Whitney Houston também era uma das minhas cantoras preferidas. Quando me tornei uma profissional da música comecei a ter outra visão desse universo. Coisas que me foram enriquecendo profissionalmente.
No último álbum, Eclipse, sente-se que não está ali um disco unicamente cabo-verdiano. É correcto afirmar isso?
Sem dúvida. Isso tem a ver com o facto da música cabo-verdiana ter sido sempre uma mistura de outros povos e culturas. Depois, há o facto de ter nascido em Portugal. Também puxa alguma coisa daí. E ainda existe o facto de nós, músicos, gostarmos de tocar tudo e mais alguma coisa. Ainda assim descobri, com o Orlando Pantera, que o meu caminho é a música de Cabo Verde.
Mas quem a ouve fica com a sensação de que pode integrar um projecto de Jazz, Bossa Nova, Tango…
Esse é que é o problema! Eu nem sei de onde vem tanta coisa, tanta influência. Não sei mesmo dizer. É daquelas coisas que nascem connosco. Vai-se a ver e até consigo compor uma música de outro género musical que as pessoas até gostam…não sei explicar isso. Isso não se explica… (risos).
Cesária, Zeca di Nha Reinalda, Alpha Blondy… O que significa cantar e partilhar o palco com gente tão diferente musicalmente?
É uma bênção. É super motivador. Quantos mais artistas vou conhecendo, mais tenho a noção de qual o meu espaço no panorama musical. Estar com essas pessoas amadurece bastante aquilo que faço e aquilo que sou. E já agora, outra coisa: quanto mais conheço outras culturas, mais orgulho tenho da minha.
Sendo assim, porque não vive em Cabo Verde?
É assim, está proibido de fazer perguntas difíceis…
Mas é a primeira…
(Risos) Penso que acabou por ser por razões profissionais. Acho que deviam baixar os preços dos voos para Cabo Verde, apesar de já terem sido mais caros. É que os senhores que nos convidam para os espectáculos dizem sempre que não podem pagar muito devido ao alto preço dos voos para Cabo Verde. Mas tenho tomado consciência disso agora, já que percebo o que são concertos, tournées e essas coisas. Mas a questão mais forte tem a ver com o facto de ter nascido em Lisboa, e a minha mãe viver cá. Sou muito ligada a ela e à minha família. É sobretudo por isso. Profissionalmente as coisas foram acontecendo por aqui, e por mais que eu passe dias fora, fico sempre com saudades desta cidade. Também fico com saudades de Cabo Verde, porque costumo ir lá e estou com a família, músicos…
O que pensa da música cabo-verdiana actual?
Está cada vez com mais força e com mais artistas a quererem mostrar as suas capacidades. Há uma coisa que se deve realçar: o dom do cabo-verdiano é tocar. Ele toca tudo em qualquer lugar. É uma coisa inexplicável. É música, é poesia… O cabo-verdiano nasceu com uma veia artística profunda. Nos últimos tempos tem mostrado um leque muito variado de artistas, do qual eu me orgulho bastante de fazer parte.
Agora, uma pergunta marota…
Outra?
Ainda não fiz nenhuma. Vamos lá a isto: o que leva uma portuguesa de ascendência cabo-verdiana a tocar num país como a Turquia?
(Risos) É uma honra enorme. Quanto mais longe, for mais vaidosa fico. Sei que vou levar a cultura e a música da minha terra para muito longe. Normalmente actuo no universo da World Music, e nesse mundo existem sempre muitas pessoas à procura de novas sonoridades. Novos instrumentos, novas histórias. Esse público é sempre super-interessado, querem saber que histórias estou a contar nas músicas, que língua é essa, como se toca aquele instrumento… Enfim, um monte de coisas nas quais se percebe que eles estão a apreciar verdadeiramente a tua música. E mais, sendo a música de Cabo Verde bastante influenciada por vários povos deste mundo, quando toco nesses países mais distantes dizem-me sempre que a minha composição faz-lhes lembrar a música da terra deles. E às vezes estamos a falar de polacos, australianos ou turcos. Por exemplo, a mazurka, que nós tanto tocamos, é de origem polaca…o funaná é tocado com gaita e ferrinhos, mas isso é trazido de Portugal.
Que artista/banda pagaria 500 euros para ver ao vivo?
Hum… Tantas perguntas complicadas… Assim de repente lembro-me da Diane Reeves. Se pudesse escolher outra seria a Rachelle Ferrell.
Sem Pensar
- Bana?
Uma rocha de Cabo Verde. Monte Cara.
-Ildo Lobo?
A voz dele é como mel…
- Cesária Évora?
Mãe da música cabo-verdiana.
-Zeca di Nha Reinalda?
É o meu pai…
- Maria Alice?
Voz linda. Uma fofa.
-Luís Morais?
Música de Natal e Ano Novo: “Boas Festas”.
-Tito Paris?
O homem dos suspensórios e da voz rouca.
-Bonga?
É o cota… das grandes músicas.
Ângelo Delgado







