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As cidades de África

Adjaye é, actualmente, um dos mais reputados arquitectos da sua geração.  Crédito: DR Adjaye é, actualmente, um dos mais reputados arquitectos da sua geração. Crédito: DR

Urban Africa é, provavelmente, a primeira exposição que explora, na sua totalidade, o urbanismo do continente. Uma viagem fotográfica de David Adjaye, arquitecto natural de Dar es Salaam, Tanzânia, que nos remete para um modelo de entendimento do que é a imensa diversidade dos centros urbanos criativos em África. Das 53 capitais africanas, 52 estão registadas em imagens.

 

“Uma pessoa residente em Nova Iorque (EUA) não tem de ser, necessariamente, mais urbana e sofisticada que um habitante de Quigali, capital do Ruanda”. A afirmação é do autor da exposição “Urban Africa”, patente no Museu da Cidade, em Lisboa, Portugal, até ao passado dia 31 de Julho. Uma mostra fotográfica que pretende mostrar ao mundo a construção e os padrões do urbanismo em África. Uma colecção de fotografias motivada pelo escasso conhecimento existente dos ambientes urbanos do continente africano.
Desta forma, quando entramos no recinto dedicado à exposição, o que observamos são as características mais marcantes das principais cidades africanas, incluindo os bairros suburbanos, urbanizações clandestinas e paisagens urbanas. Adjaye explica, assim, o processo criativo que levou à feitura deste trabalho. “Quando aterro num lugar, entro num táxi local e passo o dia inteiro a deslocar-me de um lado para o outro da cidade em causa. Identifico a escala dessa zona urbana e os seus critérios chave”, conta, em declarações à África Today, o autor das fotografias que compõem a exposição.
Ainda antes de começarmos a analisar a malha urbana das grandes cidades de África, a exposição é-nos introduzida com uma representação gráfica do projecto. Vários mapas do continente em grande escala, de índole politica e geográfica. Revela-se a região sob diferentes prismas, tais como as línguas, bandeiras, zonas geográficas, densidade populacional, fronteiras e, claro, cidades visitadas e fotografadas pelo arquitecto. 
Relativamente ao seu trabalho fotográfico, David Adjaye revela que câmara é, agora, uma ferramenta indispensável para o trabalho de qualquer arquitecto. “A máquina fotográfica é um bloco de notas para um arquitecto. Para mim, este é um diário de esboços do ambiente urbano. Não se trata de uma reacção pessoal, não se trata dos meus gostos, do que me agrada ou não”, explica.

As várias regiões
As cerca de duas mil fotografias estão divididas em regiões. Adjaye, para melhor organizar a mostra, “cria” seis zonas, onde, no seu interior, encontraremos várias cidades africanas. O Magrebe, o Deserto, o Sahel, a Savana e a Pradaria, a Floresta Tropical Húmida e, por fim, a Montanha e o Planalto são as zonas identificadas. Em cada uma, o fotógrafo junta três categorias: as imagens de edifícios comerciais, civis e residenciais. Após tamanha tipificação, pesquisa e análise, o responsável pela exposição frisa que este trabalho “pode ser considerado um curso intensivo de urbanismo e habitação urbana do século XIX”.

Luanda, uma das 52 capitais registadas por fotografia, é captada através de dois prismas: a construção colonial e a reconstrução angolana, após o final da guerra civil, onde se mostram os grandes edifícios empresariais. Estão igualmente representadas imagens da população nas praias da cidade e os vários mercados existentes na capital angolana. A visão de Adjaye sobre Luanda é, talvez de forma propositada, o espelho da actualidade: uma zona onde reina a paz, em franca reconstrução e virada para o futuro, sem esquecer os traços dos edifícios coloniais.
Referência para Maputo, capital moçambicana, onde se destaca as amplas e imensas avenidas construídas, ainda em época de dominação portuguesa. Em Bissau (Guiné Bissau) e São Tomé (São Tomé e Príncipe) realce para a análise de Adjaye no que diz respeito à heterogeneidade da construção. “As construções clássicas possuem pouca ligação ao meio envolvente”.
A Cidade da Praia (Cabo Verde) é referida como um “antigo ponto de paragem para encarar a restante África”. 

A ausência de Mogadíscio
África tem 53 capitais. Como referido pelo arquitecto, o trabalho incidiu sobre 52. Falta uma, que é Mogadíscio, capital da Somália. Assolada, há vários anos, por uma violenta guerra civil, David Adjaye lamenta “que a actual situação política da cidade não permita uma reprodução da sua malha urbana”. Ainda assim, o autor da exposição refere que “seria bastante interessante observar Mogadíscio sem os efeitos dos sucessivos conflitos, já que, em tempos, chegou a revelar um crescimento e desenvolvimento notáveis”, conclui.

Quem é David Adjaye
Adjaye é, actualmente, um dos mais reputados arquitectos da sua geração. Reconhecido por uma grande sensibilidade e visão artística, pela engenhosa utilização dos materiais, design personalizado e capacidade para esculpir e apresentar a luz, os seus trabalhos têm merecido a mais alta consideração, tanto do público, como da comunidade de arquitectos. Após formar o seu próprio estúdio, em 2000, recebeu várias encomendas, nomeadamente projectos de escala, público e geografia variada, exposições de design, pavilhões temporários e residências particulares, tanto no Reino Unido como nos EUA. Foi, também, docente na Escola Superior de Design de Harvard e na Universidade de Princeton, ambas nos EUA. A sua formação foi construída na David Chipperfield Architects e, mais tarde, na Eduardo Souto Moura Arquitectos, no Porto. O seu projecto mais recente, concluído em 2010, é a Skolkovo – Escola de Gestão de Moscovo, alvo de críticas muito positivas. Actualmente lidera a equipa Freelon Adjaya Bom/Smith Group, responsável pelo projecto do futuro Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington DC (EUA), com conclusão prevista para 2015.

Ângelo Delgado

 

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