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Moçambique, o “novo rico” da África Austral

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Mais de dois mil milhões de dólares em investimento estrangeiro. Crescimento da economia de 7,5 por cento já este ano e de 7,9 pontos percentuais em 2013. Nos próximos três anos é esperada a entrada de 17 mil milhões de dólares provenientes do estrangeiro. Conheça estes e outros números do mais recente país emergente da África Austral.

 

“Temos registado vários sucessos no domínio da atracção de investimento. A recente descoberta de carvão e gás natural [na Bacia do Rovuma], bem como as nossas potencialidades em áreas como o agro-processamento, turismo, serviços e logística catapultaram o país para a agenda da economia e finanças internacionais”. O autor desta declaração é Armando Guebuza, Presidente da República de Moçambique, e foi proferida na inauguração da última Feira Internacional de Maputo (FIMA), que se realizou entre 30 de Agosto e 5 de Setembro. 
Há alguns anos, esta frase apanharia qualquer multinacional ou empresário desprevenidos. Hoje não. O país aparece cada vez mais na rota dos fluxos internacionais de capitais e é palco de inúmeras manifestações de interesse em todo o Mundo. 

Dados disponibilizados pelo Banco de Moçambique mostram que, em 2011, o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) atingiu os 2,1 mil milhões de dólares. Por seu turno, o Centro de Promoção de Investimentos do país espera atrair, no próximo triénio, investimentos na ordem dos 17 mil milhões. De forma simples, poder-se-á dizer que a economia moçambicana encontra-se num momento de pujança e dinâmica, sendo alvo de interesse por parte de grandes, médios e pequenos investidores.

“Devemos estar preparados para dar respostas estruturadas a estes novos desafios”, acrescenta Guebuza, como que a preparar terreno para o que parece inevitável: o investimento estrangeiro virá em força e, com ele, um vasto número de profissionais expatriados. “Moçambique passou a ter acesso a mais mercados em condições favoráveis, como são os casos da região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), bem como os mercados chinês, japonês e norte-americano, que constituem uma oportunidade para o sector privado nacional”, afirma o governante.

Crescimento da economia
A acompanhar as previsões do Presidente e organismos estatais moçambicanos está o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). A entidade prevê um crescimento de 7,5 e 7,9 por cento da economia moçambicana para 2012 e 2013, respectivamente. Mais uma vez, informa o BAD, esta alavancagem tem como principal actor a indústria extractiva, com destaque para o carvão. 
“A retoma de fortes investimentos directos estrangeiros, sobretudo nas indústrias extractivas, o crescimento agrícola e o investimento em infra-estruturas devem levar a um crescimento real em 2012 e 2013”, refere o relatório publicado pelo BAD.
Dados do Instituto Nacional de Estatística moçambicano revelam ainda que o PIB sofreu um aumento de 7,2 por cento no primeiro semestre do ano.
Segundo André Santos, economista do BAD em Moçambique, “o principal desafio do país a médio prazo reside no alargamento da base fiscal em resposta à diminuição dos fluxos de ajuda”. Ainda no mesmo discurso, o economista lembra que “os níveis de pobreza parecem ter estagnado, com 54,7 por cento da população a viver abaixo da linha de pobreza nacional”.
Por outro lado, numa perspectiva de curto prazo, André Santos aponta como principal desafio “conciliar o ambicioso investimento em infra-estruturas com as redes de segurança social”.
O relatório do BAD aponta ainda para a existência de uma alta taxa de crescimento populacional, e estima-se que haja 300 mil novos ingressos anuais no mercado de trabalho. A taxa global de desemprego situa-se nos 27 pontos percentuais, sendo que a economia formal está concentrada nas áreas urbanas e absorve apenas um terço do emprego total.
Comentando o relatório do BAD, Henrique Banze, ministro moçambicano dos Negócios Estrangeiros, frisa a importância dos jovens para o desenvolvimento do país, já que “constituem a força de trabalho mais dinâmica e o extracto social mais poderoso”.
Banze lembra ainda a importância de ideias pré-concebidas como “conflitos armados, pobreza extrema e miséria de um sub-mundo completamente marginal e de periferia” estarem, paulatinamente, a desaparecer.

A visão da comunidade internacional
A União Europeia (UE) tem sido um dos grandes parceiros económicos de Moçambique, financiando vários projectos para o seu desenvolvimento. Numa recente visita ao país, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia (CE), recordou que a nação “é um exemplo de boa gestão na aplicação dos fundos disponibilizados”. Mantendo o tom elogioso, Barroso recordou que “75 por cento dos apoios concedidos são provenientes do Velho Continente”.
Apesar da grave crise que assola a Europa, a Alemanha de Angela Merkel não tem deixado de apoiar vários sectores de actividade em Moçambique. O facto de ser a mais forte economia europeia faz com que a credibilidade de Maputo nos mercados financeiros esteja em alta. 
“As excelentes perspectivas de desenvolvimento da economia moçambicana fazem com que a Alemanha aumente o seu fundo de financiamento em apoio às acções de viabilização de programas estratégicos de desenvolvimento socioeconómico do país”, revelou a Agência de Desenvolvimento e Cooperação Alemã (GIZ). Em média, Berlim canaliza cerca de 25 milhões de dólares para apoiar “o sector privado” e para “melhorar o ambiente de negócios, a educação profissional, a promoção de igualdade de género e o combate contra a sida”, enumera Lorenz Petersen, director da GIZ.
No sector privado, a agência apoia 100 micro, pequenas e médias empresas moçambicanas em matéria de gestão financeira, registo, licenciamento e acesso a serviços financeiros. 

Críticas do FMI
Ainda que, de modo geral, os elogios sejam a tónica quando Moçambique é o tema central de análise, sobram algumas críticas por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI). Roger Nord, director da entidade para África, adverte para a falta de apoios direccionados para a população mais carente, apesar do crescimento económico. “Os pobres continuam a ser pouco beneficiados, apesar do rápido crescimento registado nos últimos anos”, começa por afirmar. “Este problema gera tensões sociais e se os pobres não forem beneficiados será um crescimento pouco sustentável”, alerta, acrescentado que “este assunto é da mais alta prioridade para o FMI”. 
Segundo Nord, Moçambique poderá, ainda assim, evitar alguns dos problemas que se registam em outros países africanos produtores de petróleo, “onde esse problema é mais visível”, finaliza.

Números

23,8 mil milhões de dólares é o valor do PIB em 2011

7,2% é o crescimento do PIB no primeiro semestre de 2012

2,1 mil milhões de dólares de investimento directo estrangeiro em 2011

17 mil milhões de dólares serão investidos no próximo triénio

7,9% é o crescimento da economia moçambicana em 2013

54,7 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza

300 mil novos ingressos no mercado de trabalho anualmente

27% é a taxa de desemprego no país

 

Moçambique – Raio X

Presidente da República: Armando Guebuza

Primeiro-ministro: Aires Ali 

Capital: Maputo

Moeda: Metical: 1 metical = 0,03 dólares/0,01 kwanzas 

Habitantes: 20 milhões, aproximadamente

Área total: 801 590 km2

Densidade: 24 habitantes por km2

PIB. 23,8 mil milhões de dólares

Faz fronteira com: Tanzânia; Zâmbia, Malawi, Suazilândia; Zimbabué; África do Sul

 

 

Ângelo Delgado

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