Vânia Gala, a bailarina do gancho azul
Sempre quis que a dança fizesse parte da sua vida e nunca teve dúvidas disso. Nem mesmo aos 21 anos, quando decidiu sair de Coimbra e rumar a Lisboa para estudar aquela arte, enquanto já andava entretida com livros de economia.
Conseguiu o primeiro trabalho em Colónia, na Alemanha e já foi notícia no jornal britânico “The Guardian”, mas não se diz surpreendida. Levou espectáculos à Bélgica, Dinamarca, Holanda e Suécia, e foi distinguida como “Melhor Performance Feminina” em Dublin, Irlanda. Os nervos antes de pisar um palco, esses, continuam a acontecer. Lecciona a sua arte a “artistas em potência” – é assim que chama os seus alunos. Nega ser professora, antes oferece aos outros as suas ferramentas do corpo. De raízes luso-angolonas, Vânia Gala é, aos 38 anos, bailarina, coreógrafa e directora artística. Apresentou recentemente em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB), o seu último trabalho: 8º 10’30. Foi por aí que começámos a conversa.
Que segredo esconde 8º 10’30?
São coordenadas geográficas e de latitude. Há milhares de sítios na terra que as têm. São a norte do Equador que passam pelo Gana e também a sul, e que passam por Luanda. Há milhares e milhares de pessoas que vivem nestes lugares.
A peça é uma metáfora da vida?
É sobre a minha vida, o meu percurso e sobre algumas pessoas que têm essas coordenadas geográficas. É uma metáfora sobre pessoas que têm uma experiência singular por causa delas. Talvez haja pessoas em Lisboa que têm as mesmas coordenadas que eu e que até fazem arte. E essas coordenadas observam-se no meu trabalho. Daí o cenário de ar condicionados brancos, porque queria criar um monstro branco. Não sou branca e toda a minha experiência – e mesmo no mundo artístico na sua grande maioria – está relacionada com esses monstros. A cultura dominante no mundo – ou dos palcos dominantes – ainda hoje é a europeia ou do ocidente. Mesmo a cultura que está a ser feita de outros países é muitas vezes escolhida. Não são os artistas que dão a ver os seus pontos de vista. São coisas que são escolhidas e mais ou menos encomendadas para essas pessoas receberem um certo ponto de vista. Mas os monstros não são só meus, são uma abstracção para muitas coisas que as pessoas vivem.
Porque escolheu um cenário citadino (árvore em forma de acácia, feita de ar condicionados e tubagens)?
Quando penso em Angola a primeira coisa que me vem à cabeça são os ar condicionados. Que pingam quando chego ao aeroporto, que tenho em casa, que saem da arquitectura modernista de Luanda. São uma das coisas mais marcantes. Lembro-me também do calor da cidade. Inspirei-me na copa das acácias, também predominantes no país. Fiz um monstro com duas layers: uma máquina fabricada pela Europa e uma árvore que é uma coisa frágil e natural. Dou por mim a rir e a pensar que podia haver mesmo destas árvores espalhadas pela baixa de Luanda.
De onde vem essa ideia cenográfica de pôr algo no local errado?
A maioria das pessoas que hoje me encontra – mesmo em Lisboa – pergunta-me de onde sou, como se tivesse sido colocada no sítio errado (risos). Quando for a Angola ou outro país vai acontecer a mesma coisa, por ter um sotaque que foi alterado. É uma característica de todas as pessoas que têm essas coordenadas como metáfora, Ainda hoje, o mundo tem grande dificuldade em pensar que um todo pode ser feito com coisas contrárias.
Como vai reagir o público?
Não sei. Depende do que queremos dizer sobre “reagir bem”. Às vezes, as peças não são para reagir no momento. Há peças que ficam na cabeça ou no coração das pessoas, ou há peças que nos lembramos ao fim de dez anos. Há livros que não quis ler há anos e agora abro a primeira página e consigo lê-los em dois dias.
Os números da dança
Mas sendo formada em economia, o que a levou até à dança?
Ao mesmo tempo que estudei economia, fiz coisas relacionadas com dança, rádio, teatro. Até que chegou uma altura em que decidi que só queria fazer dança, porque queria que fizesse parte de mim para a vida e porque havia uma visão que queria transmitir às pessoas. Mas quando estudei dança já não me interessava tanto trabalhar como bailarina, mas sim exprimir algo com um trabalho. Com um corpo de bailarinos, com uma cenografia, com uma música. O texto nunca me fascinou. Gosto de livros e de lê-los, no entanto, sempre achei os textos demasiados específicos. Sei qual é a história, mas isso não permite uma série de sensações que a dança permite. E depois interessa-me muito o corpo. O corpo com o qual me levanto, com o qual estou e falo com os outros. É uma coisa muito mais pessoal e única. É uma grande diferença quando se tem uma profissão fora do ramo das artes. Ser artista é uma maneira de viver. Faz parte da maneira como vivo, como acordo, como ocupo o meu espaço, como o meu apartamento é.
Se fosse hoje teria feito aquela primeira formação?
Por trás de uma produção artística há um trabalho (muito chato) que pode ser feito por outras pessoas, mas que o próprio coreógrafo, encenador ou director de uma companhia têm de saber. E agora que trabalho como coreógrafa, a economia tem me dado muito jeito em questões mais práticas (ao contrário do que se possa pensar). Estudei uma economia especial. Não a dos números, mas a que está ligada à sociologia, à economia internacional e à relação entre os países. Continua a ser uma área que me interessa e que até está presente nos meus trabalhos.
Depois de vários workshops, terminou os estudos na Holanda …
Os trabalhos que via e mais interessavam eram feitos nessa escola na Holanda [European Dance Development Center, Arnhem]. Mas não era uma escola com professores holandeses, mas sim ligada a Steve Paxton [bailarino e coreógrafo norte-americano com que aprendeu a pensar como artista]. Tive aulas com ele durante três meses e lembro-me de uma conversa que tivemos no último ano. Convidou cada aluno a passar um dia com ele no apartamento e a falar numa varanda, muito pequena e quadrada. Foi uma escola de improvisação e um espaço onde se aprendia técnica e se podiam experimentar ideias. Isso não existia em Portugal. Estudei com pessoas de todo o mundo. Só tive uma colega holandesa. Foi importante ter contacto com pessoas de países tão diferentes, facto que criou em mim a ideia de quem sou em contraste com os outros.
Há públicos diferentes nos locais da Europa e de Angola onde já apresentou espectáculos?
Mostrei o Automatic ID (AID) [2004] em vários países e lembro-me de que quando fui para Luanda tive muito medo. Contudo, as reacções não foram muito diferentes e isso surpreendeu-me. As perguntas que me fizeram foram semelhantes. A coisa mais marcante foi que muitas daquelas pessoas nunca tinham visto uma mulher sozinha em palco e a dançar. E depois nunca tinham visto um palco, com linóleo e luzes – aquilo que se chama “trabalho de palco”. Tinha receio porque em Luanda as estruturas existentes são ainda hoje muito frágeis. Não há uma tela que tenha o equipamento de iluminação para espectáculos de palco ou de som. Mais, tinha medo da reacção do público, porque talvez nunca tivesse visto obras de dança contemporânea, mas sim de dança moderna ou tradicional. Estive até às seis da manhã a montar o palco. Não encontrei os materiais e tive de comprar um utensílio de cozinha a servir de linóleo de improviso.
Qual foi a sensação de ser distinguida com o “Prémio de Melhor Performance Feminina” com AID em 2005, no Dublin Fringe Festival?
Embora já tivesse rodado noutros sítios e nunca tivesse recebido grande feedback, foi o meu primeiro trabalho. Por isso foi uma surpresa muito agradável. Além de ser gratificante, tratou-se de um impulso para continuar a fazer coisas. Isso é muito importante para os artistas quando estão a começar.
Ficou surpreendida por ter sido notícia no “The Guardian” em 2005?
Surpreendida não diria, porque é natural a ligação entre a imprensa e os festivais nesses países. E a dança é muito mais importante no Reino Unido e na Irlanda que em Portugal.
A Vânia professora é diferente da Vânia bailarina?
Em primeiro lugar, não sou professora. Sou alguém que tem ferramentas do corpo e as oferece para serem usadas por pessoas que queiram usá-las criativamente. Ferramentas que permitem ao corpo ter maior controlo, para que seja possível fazer o que se quiser com ele. Não entendo, nem julgo que existia ensino em arte. Não é a mesma coisa que ensinar matemática. Por exemplo, quando quis oferecer essas ferramentas na cidade de Coimbra, sugeri que fosse só para maiores de 15 anos, porque a pessoa que vem às aulas é um artista em potência. É a primeira vez que estou a trabalhar corpos de pessoas que não são bailarinos profissionais, e com diferenças etárias de 30 anos. Permite perceber como os artistas são tratados e pensados em países diferentes.
As raízes angolanas têm ou tiveram influência na sua forma de estar?
Neste momento talvez não, porque estou sozinha em palco. Mas quando trabalhei em companhias europeias a primeira coisa que as pessoas perguntavam era de onde vinha, uma vez que trabalho com o corpo. Provavelmente tenho um corpo e um cabelo diferente da maioria das pessoas que está nessas companhias. Existem muito poucos bailarinos na Europa – na área que trabalho – como eu. Até sou capaz de dizer que nos conhecemos. E somos de sítios diferentes.
Em que vertente da dança se sente mais confortável?
Só trabalho com dança contemporânea, mas já experimentei outras vertentes. Já trabalhei com yoga. Na última peça de MiamiLuanda [2008], houve um bailarino de Angola que trouxe passos de kuduro e no próximo trabalho vou colaborar com breakdance. Como venho de uma área de improvisação, isso permite-me experimentar um leque enorme de coisas. Nas aulas estou a dar ballet. Como vejo os alunos a progredir lanço iniciativas para ver como os corpos reagem. Mas não tenho um corpo moldado a uma só técnica. Uso-as todas.
Ainda fica nervosa antes de subir ao palco?
Toda a gente fica [risos]. A vida inteira. Sempre. Nunca se sabe quem é o público. Não se pode adivinhar, nem nunca se sabe o que vai acontecer. Embora trabalhe com uma dança que provém dá improvisação, trabalho com tudo marcado. Não há truques para acabar com o nervosismo. Ele acontece.
Alguma vez pensou que pudesse ter tanto sucesso?
Não, e não acho que tenha assim tanto sucesso [risos]. Nunca pensei nisso, nem é muito importante. E isso é outra das coisas que gosto em dança. Numa altura em que se fala de indústrias culturais e de se fazer dinheiro com arte, a dança é a forma de arte menos vendável e vai continuar a ser. Trabalhar com corpos é efémero, porque são coisas que não se mantêm. Demora-se dez anos a montar um bailarino e outros dez ou menos a dançá-lo. Há características que fazem com que este trabalho seja muito mais cansativo. Há muito menos apoios financeiros, há imensa gente a querer dançar e existe muito pouca gente que goste de ver dança. E depois há poucos espectáculos e o mundo, infelizmente, é cada vez mais sobre o dinheiro. Ser-se bom ou não, é, muitas vezes, quantificado não pela arte em si. A arte é inútil. Pode dar emoções às pessoas, mas não é a mesma coisa que ir comprar algo ou que receber mil dólares. E depois, a dança é de todas as artes a que tem menos visibilidade. Tem a ver com os custos e com a sua tradição. O teatro tem uma tradição muito mais antiga, uma história para contar, e isso torna-o mais fácil de chegar ao público que uma peça de dança de linguagem abstracta.
O que ainda lhe falta fazer?
Muitas mais peças, ir mais vezes a Luanda e trabalhar com pessoas de lá. Muita coisa [risos]. Falta a vida inteira.
A Vânia e o monstro branco
Quando nos recebeu no café dos artistas no CCB estava leve, sorridente, descontraída. Confessou que precisava de comer qualquer coisa antes de iniciar a entrevista e agradeceu a pausa proporcionada. De corpo de menina pequena, tinha um pequeno gancho azul no cabelo. Cinco dias depois, no dia do espectáculo a 20 de Fevereiro, Vânia era outra pessoa. De ar compenetrado, algo cansado – e com a mesma pronúncia inconfundível de quem passou largas temporadas na Alemanha –, pediu-nos para que não tirássemos fotografias. Tinha receio que isso a pudesse desconcentrar. De luzes quase inexistentes, a sala de ensaio estava pronta para a cena. Em terra batida seca, a bailarina dá voltas ao cenário enquanto o espaço começa a clarear. Ao ritmo de sons urbanos, Vânia imprimia movimentos acrobáticos – quase maquinais – rodeada pelos já referidos ar condicionados (que foram ganhando força com o passar do tempo, e perdendo-a também). De respiração ofegante, tinha ar de quem queria fugir dali ou de quem pedia suplício por algo. Enquanto larga e pega um e outro casaco, a sua pele foi ficando manchada pela cor térrea do chão. Simulando braços e pernas presas, Vânia acalmou ao som dos aparelhos. O gancho azul, esse, estava semi-escondido nos caracóis.
Joana Tavares da Silva







