Home | Edição Impressa | “Sinto-me um pouco árvore com raízes”, Mariza dos Santos

“Sinto-me um pouco árvore com raízes”, Mariza dos Santos

Mariza dos Santos, artista plástica. Mariza dos Santos, artista plástica.

“Chama-me apenas por Mariza dos Santos”, começa por dizer a artista plástica na entrevista que concede à África Today. Numa tarde de sábado e com um sol escaldante, Mariza recebe-nos na sua casa, no bairro Alvalade, em Luanda.

É na sala do primeiro andar, decorada com os seus próprios quadros, que nos fala um pouco de si, da sua vida, da sua profissão e dos seus gostos. Partilharia da mesma ideia se dissesse que ao artista tudo é permitido, desde que não roube ou mate? “Entre o sim e o não, tomei a liberdade de abrir um parêntese do conjunto das minhas memórias, e rebusquei das páginas antigas e já amareladas pela força do tempo uma das noções clássicas de artista: todo o indivíduo é capaz de produzir algo de novo e esteticamente belo”, responde. Pintado que está o primeiro cenário, e com tons claros sem óleos sobre uma tela, estamos perante sinais de vida de uma luandense com fortes marcas do Namibe.

Como se apresenta?
Nasci em Luanda em 1955, mais propriamente no bairro Miramar, Comuna do Sambizanga. É o meu bairro e dali saíram bons músicos, desportistas, presidentes e povo.
 
Passou toda a infância em Luanda?
Sim, toda a minha vida foi feita cá. Mas passava as férias na cidade do Namibe e Lubango, porque a minha família é oriunda do Namibe. Chegou a Angola em 1891, portanto sou da quarta geração nascida já em Angola.

Se a família é oriunda do Namibe, nasceu em Luanda de forma acidental?
Não, os meus pais vieram para cá para estudar. A minha mãe era enfermeira, já na época tinha as suas ideias, e esteve bastante envolvida nos serviços de luta pela causa nacional. Ajudou muitos bebés a vir ao mundo e os feridos após [as acções ocorridas no dia] 4 de Fevereiro.
 
Falemos agora da Mariza dos Santos artista plástica. Segue alguma corrente estética?
Sou autodidacta, nunca tive escola. Comecei a pintar porque gosto e por hobby, depois fui aperfeiçoando. Não gosto das coisas muito perfeitas e estou cansada de dizer isto, porque quando se tem uma escola fica-se muito direccionado para o academicíssimo, seguimos uma academia, temos uma linhagem. Gosto muito do que é abstracto e sou uma apaixonada por [Wassily] Kandinsky. O que vejo numa obra de arte outra pessoa não vê e vice-versa.

Que técnicas usa na elaboração das suas obras?
Como disse não tenho escola, mas faço o uso do acrílico e de tudo um pouco relativamente ao trabalho manual. Sou uma apaixonada pela pintura e faço uma colagem na sua pergunta para dizer que sou também apaixonada pelo bailado clássico, cuja harmonia me fascina. A harmonia faz parte da minha vida e se a minha vida é conduzida pela harmonia, logo a encontramos também na pintura que faço.
 
Convido-a agora a pintar um quadro com três cores: primeira “Manuel Rui”, segunda ” Mariza dos Santos” e terceira “O Semba da Nova Ortografia”.
Sempre que tenho oportunidade digo, e de boca cheia, que sou fã incondicional do Manuel Rui. Não posso dizer que sou a número um. No entanto, Manuel Rui é meu camarada, meu compatriota e foi meu companheiro de luta. Um dia destes veio cá a casa e ficou a observar algumas das obras expostas que tenho aqui na sala. Entre as várias, gostou no primeiro instante do quadro a quem tinha intitulado de “Semba”, que se adaptava perfeitamente à obra que tinha em forja sobre o acordo ortográfico e fez do quadro a capa do livro com o título “O Semba da Nova Ortografia”. É um indivíduo de grande inteligência (reconhecida) e criatividade ímpar. Do quadro à capa, do semba-dança e música, os compassos e recompassos da nova ordem ortográfica.
 
Que outros nomes têm os seus quadros?
Estou a trabalhar num quadro cujo nome é muito simples: “Presente, Passado e Futuro”. É feito com cores fortes. Trabalho com frequência com o amarelo, vermelhos, pretos e as cores de terra. Entretanto, estou a fazer uma incursão pela dança, ou seja, estou a pintar uma espécie de bailarina, mas com movimentos muito meus. Aliás, o quadro Semba é parte do conjunto deste projecto sobre a incursão pela dança em pintura.
 
Sei, também, que tem um especial carinho pela natureza...
Sim, outra incursão que tenho feito é pela minha Luanda, e vejo como cortam as árvores da minha cidade. Sou apaixonada por árvores. Têm raízes e sinto-me um pouco árvore com raízes. As árvores são os únicos seres vivos que em tempos de guerra nunca conseguem manifestar nada. Melhor, a única forma que têm de se manifestar é estarem vivas ou mortas. Há em Luanda, e um pouco por todo o país, árvores que assistiram a todo o desenrolar de guerras, seja pela independência ou pela civil. E porquê? Porque não podem fugir, estão presas ao solo. Esta é a natureza que quero e vou pintar. Há árvores aqui na Maianga que ainda têm marcas de guerra.
 
Os poetas dizem que a carga de emoção e inspiração colhe-se melhor à noite, senão mesmo ao amanhecer. Experimenta as mesmas situações para pintar?
Claro que não. Pinto a qualquer hora. Pinto quando me apetece e quando tenho comichão nas mãos. Mas é bem verdade que a noite confere sempre uma calma sem igual, e Luanda é 100 por cento barulhenta.
 
A sua arte é só para a família e amigos?
De facto pinto para mim e para os que me rodeiam. Mas de um tempo a esta parte perdi a vergonha e pelo terceiro ano consecutivo vou expor no Celamar [casa de cultura e artes localizado na ilha de Luanda]. Não sou uma feminista acérrima, mas considero ter um “quê” de especial expor sempre em Março [celebra-se dia 2 o Dia da Mulher Angolana e a 8 o Dia Internacional da Mulher].
 
Já que falou em Março, o que lhe diz o Março Mulher?
O Março Mulher tem, para mim, um significado muito importante. A mulher em Angola tem um papel preponderante, que remonta a velhos tempos, como na luta de libertação. Além da presença nas frentes de combate, estiveram em grande maioria na retaguarda, portanto ajudaram, e muito, na causa da independência de Angola. Isso para mim é o Março Mulher.
 
Como surgiu a pintura na sua vida?
Não me lembro. Sempre tive lápis de cor e papel que nunca era deitado fora. Os meus pais guardavam papel de rascunho e depois…

Quando e porque começou a pintar?
E porque respiro? A professora da instrução primária obrigava e depois, desde o liceu até ao 5º ano, tive professores espectaculares em desenho.

De que modo os anos de guerra influenciaram a sua estética?
Nenhuma guerra tem estética. A pior ruína para os apreciadores é a ruína humana, mas a solidariedade desenvolve-se.

Não sendo a pintura a sua profissão mas sim um hobby, qual o destino dos seus quadros?
É apenas um hobby porque não tenho necessidade de viver da pintura, por isso até posso oferecer quadros a amigos, porque ficarei sempre ligada a eles. Outros vendi um pouco envergonhada, porque não é razoável vender arte. Mas oferecer seria uma utopia, porque há contas a pagar.

As suas obras estão à venda?
Sim, desde que me solicitem.

Pode enquadrar-se em algum movimento estético angolano?
Não, sou eu mesma. Tive um movimento muitos anos e agora tenho um partido (gargalhadas), que é o do meu coração: o EME.

Considera que a pintura e outras artes têm merecido a melhor atenção por parte da sociedade angolana?
Temos ainda um longo caminho a percorrer, mas Roma e Pavia não se fizeram num dia, por isso acredito que pode não ser no meu tempo, mas Angola está ainda a aprender a andar e vai muito bem.

De que modo a pintura e a arte podem influenciar a harmonização de um povo que tanto sofreu com a guerra?
Conhece a terapia da cor... A cor é tudo o que é belo e harmonioso, e faz milagres à mente humana, que tem essa capacidade de nascer e renascer.

Qual o caminho que falta a Angola trilhar em termos culturais?
Os caminhos da cultura não têm começo e fim, mas não me importaria de termos um ensino melhor nas artes. Por consequência, quando os materiais deixarem de ser só acessíveis a determinadas camadas sociais sabe o que ofereço às crianças? Lápis de cor e guaches não tóxicos, porque qualquer criança é criativa. Conheço uma criança que adora imitar aqueles que pintam. Pediu à mãe para entrar numa escola onde existe pintura como actividade extra-curricular, mas sabe quanto custa? Trezentos e cinquenta dólares (258 euros)... É uma loucura, mas mal começou o professor, que é estrangeiro, foi de férias. É um absurdo. Não vou informar qual é a escola, mas não será difícil de adivinhar. Essa criança tem uma criatividade imensa e está triste. Acho que com isto digo tudo. Quantos gostariam de ter lápis de cor, papel e umas simples caneta de filtro? Aí, cabe aos pais serem famílias funcionais e valorizarem esses trabalhinhos. Tenho desenhos de muitas crianças, até do meu filho, que tem 28 anos. Guardo-os como obras de arte... Isso faz toda a diferença.

Quem é Mariza dos Santos?
Nasceu a 26 de Dezembro de 1955 e cresceu no Bairro Miramar, em Luanda, tendo estudado no antigo liceu Salvador Correia. Os anos passam e vai envelhecendo na cidade que a viu nascer. Mãe de um filho com 28 anos, Mariza é apaixonada por animais, à excepção de répteis. Encontra nas aves uma paixão, talvez pela liberdade que representam. Tem dois papagaios, o Tomé e a Bié, que são os seus companheiros, tal como todos os pássaros que a visitam no seu jardim, onde tem bebedouros e comida. Adora gatos, e pela sua subtileza, chama-os por nomes de criadores de moda famosos: Gucci, Cavalli, entre outros, mas depende muito da personalidade de cada um e da sua pelagem. Devido à perda de um Rottweiler, por quem nutria uma paixão cega, deixou  de ter cães. As árvores são os únicos seres vivos que nunca fogem, porque têm raízes, um pouco à sua imagem. Conhece muitas árvores em Luanda e diz que a que está localizada no Kinaxixe, em frente à 1ª Conservatória, é uma das mais antigas da cidade. Diz que reconhece árvores que foram testemunhas da guerra de 1992, e onde ainda existem marcas de projécteis, pois ficaram cravados nos troncos. Considera que um artista pode colocar numa tela alegria, tristeza, calma, agitação e amor. Diz que a música clássica é normalmente composta sem letra nem significado, bastando a beleza da sonoridade. Por isso, uma obra de arte não é diferente de uma canção. Ambas são comunicação. O jazz e a pintura abstracta ligam lindamente: “Um artista de jazz cria no momento uma harmonia de acordes, tal como eu crio os meus quadros”. Mariza vai mais longe: “A pintura para mim é um refúgio. Quando estou com as telas, tintas e pincéis, ou mesmo uma simples esponja, o tempo pára e aí arranca a criatividade e a dança das cores e riscos através das tintas, e combinações que não são mais nem menos que os acordes para um compositor musical”. Considera-se uma pessoa feliz e com saúde, que tem “um filho excepcional”. “Todos os dias agradeço às forças superiores que me mostram o caminho que devo percorrer até acabar o prazo de validade do meu código de barras”, finaliza.

Kandinsky, outra das paixões de Mariza
Wassily Kandinsky nasceu a 4 de Dezembro de 1866 em Moscovo, na Rússia, e faleceu a 13 de Dezembro de 1944. Estudou Direito e Economia, tendo sido professor na Faculdade de Direito e escrito sobre temas relacionados com a espiritualidade. Em 1895, após visitar uma exposição em Moscovo sobre o Impressionismo francês, vê um quadro de Claude Monet que o fascina, provocando-lhe a vontade de pintar. Mas deseja pintar obras que exprimam algo. É esta necessidade interior de expressar as suas percepções emocionais que levam ao desenvolvimento de um estilo de pintura abstracto, baseado em propriedades não-representativas de cor e forma – a abstracção lírica. Vive grande parte da sua vida na Alemanha, o que influenciou bastante o seu estilo e percepções. Vem a ensinar na reconhecida escola de vanguarda, Bauhaus. Alguns anos antes de morrer deixa novamente a Alemanha – a primeira vez tinha sido com o iniciar da 1ª Guerra Mundial – e instala-se perto de Paris, França, precisamente com o objectivo de aí terminar a sua vida. Morre em Neuilly-sur-Seine. Para Kandinsky, o objectivo da pintura é “encontrar a vida, tornar perceptíveis as suas pulsações, estabelecer as leis que as regem”.

África Today

  • email Email para Amigo
  • print Versão de Impressão
  • Plain text Versão Texto
BancoBIC
3.00