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“Sector ambiental em Angola é vital”

O debate no Museu da Electricidade, em Lisboa, abordou a crescente ligação entre ambiente e economia. O debate no Museu da Electricidade, em Lisboa, abordou a crescente ligação entre ambiente e economia.

Syanga Abílio, vice-ministro do Ambiente angolano, esteve em Lisboa a participar numa conferência sobre ambiente, energia e sustentabilidade. O governante deu a conhecer a política ambiental para o presente e para o futuro de Angola.

Ambiente e oportunidades de negócio estão cada vez mais de mãos dadas. É inegável que o ambiente, nos últimos anos, é uma aposta das grandes empresas multinacionais. Procuram cada vez mais o símbolo verde, de conscientes e amigas do ambiente. Mas se puderem facturar com uma visão mais ecológica, todos ficam a ganhar. Esta é a visão do antigo ministro das Finanças de Portugal, Êrnani Lopes, que participou numa conferência organizada pelo jornal “Sol” subordinada ao tema “Ambiente, Energia e Sustentabilidade”. Presente no evento, que aconteceu em Lisboa, no Museu da Electricidade, esteve também, como orador convidado, o vice-ministro do Ambiente do governo angolano, Syanga Abílio.
O governante explicou, diante de uma audiência de empresários e docentes, qual é a política de ambiente do executivo angolano. “Devo dizer que, como angolano, quando penso em ambiente penso num país em desenvolvimento”, começou por dizer, lembrando que Angola tem uma oportunidade de crescimento seguro e que o país está à procura de um equilíbrio entre a economia e o ambiente: “Devemos evitar cometer os erros ambientais que os países desenvolvidos cometeram. Isso fará com que evitemos pagar uma factura maior no futuro.”
Syanga Abílio disse que o país “está a mudar”. E tudo passa também por uma questão de mentalidades. “A herança do conflito armado foi muito grande. Deu-se o êxodo rural para as grandes cidades e isso trouxe vários problemas ambientais”, notou. “Questões ligadas ao saneamento, a geradores de electricidade – ligados à poluição atmosférica e sonora”, exemplificou. O político declarou que “o sector ambiental é vital”. Nesse sentido, a aposta vai para “a recuperação e construção de novas estruturas – estradas, pontes, saneamento básico –, sempre tendo em atenção o ambiente”.
Em declarações à África Today, o vice-ministro garantiu que empresas e investidores, e também os próprios angolanos, estão a reagir bem às intenções do governo. “A população já começou a aderir. Já se regista um grande número de apresentação de estudos de impacte ambiental [análise técnica e científica das consequências da implantação de uma actividade de desenvolvimento].” Para Abílio, é uma questão de “consciencialização” e de “educação ambiental” que se começa a fazer notar no povo angolano. “E isso é fundamental para conseguirmos o tal equilíbrio que queremos entre ambiente e economia. Ninguém procura a estagnação do desenvolvimento. Queremos desenvolvimento, mas acompanhado das melhores práticas ambientais.”
Além destas preocupações ambientais mais viradas para o urbanismo, Angola não esquece o seu enquadramento na África Austral, o que lhe garante uma enorme biodiversidade. Essa é uma das apostas do governo para tentar equilibrar as premissas ambiente e economia: “Os parques naturais também trazem riqueza”, disse o vice-ministro, recordando o investimento que outros países próximos de Angola fazem num sector como o turismo: casos do Botswana, África do Sul ou Moçambique. “Estamos a trabalhar nessa área”, declarou. “Temos uma área de conservação na ordem dos 6,6 por cento. Mas queremos aumentá-la para os 12 por cento”, explicou. “Já encontramos mais palancas negras nas nossas terras. E assistimos também ao regresso de outras espécies aos habitats naturais. É o caso dos leões e dos elefantes.”

A dependência do petróleo
A intervenção do vice-ministro passou também pela questão petrolífera. Numa altura em que o mundo está chocado com o trágico acidente que se deu no Golfo do México, nos EUA, o governante fez questão de falar da questão angolana. “O aumento do comércio petrolífero trouxe incremento de navegação, para se poder transportar o crude”, fez notar, para depois deixar um alerta: “Temos de estar preparados para um derrame. Esse risco existe e temos de ter mecanismos de protecção”, disse a propósito da medida de acção que é o Plano Nacional de Contingência contra Derrames.
Em conversa posterior à sua intervenção, o responsável disse à África Today que o acidente que se deu com a petrolífera BP nos EUA “é uma lição para todos”. “Sabemos que as empresas no exercício da sua actividade operacional estão sujeitas a esse tipo de acidentes, por isso é importante que se introduzam as auditorias ambientais. São essas auditorias que podem prever situações desastrosas.” Ainda assim, “um acidente também não se pode prever e seria utópico dizer que o problema de auditoria vai resolver um acidente”. No entanto, o responsável reforçou que “existe a necessidade de actualizar, sempre que necessário, os equipamentos e também o seu tempo de vida”.
A dependência económica de Angola face ao petróleo também não foi escusada. Syanga Abílio garantiu que as petrolíferas que operam em território angolano estão a receber bem as medidas ambientais do executivo. “Há uma tradição muito grande em relação ao sector petrolífero. O nosso país já tem uma larga experiência na gestão das concessões. Mas é importante que as companhias invistam no sentido de repor a imagem ou a paisagem encontrada antes do início de cada operação ou actividade petrolífera. Isto para garantir o bom meio ambiente.”
Apesar dessa dependência, a atitude angolana não está apenas para os combustíveis fósseis. Há, também, uma aposta nas energias renováveis. “Temos estado atentos aos problemas ambientais. Por isso ratificámos dois protocolos: em 2002, o de Viena e em 2007 o de Quioto. E criámos também a chamada Autoridade Nacional Designada (AND)”, responsável pela aprovação de projectos elegíveis para o mercado de carbono. As metas energéticas e a ligação aos combustíveis fósseis por parte do país ainda se vão prolongar durante mais um bom par de anos, revelou o vice-ministro do Ambiente. No entanto, Syanga Abílio afiançou que Angola “tem de implementar mais energias renováveis”, para que em 2012 “30 por cento da população” já esteja a ser abastecida por energias verdes.

O Rolls Royce nuclear
Um dos temas que foi também discutido nesta conferência promovida pelo jornal “Sol” foi a necessidade, ou não, de ser implementada uma central nuclear em Angola. Syanga Abílio – que teve como companheiros de debate João Manso Neto, administrador da EDP, e Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal – foi bastante taxativo nesse aspecto. “A matriz energética de Angola ainda não se liga à energia nuclear”, disse, fazendo uma comparação para tornar a ideia ainda mais clara: “Não vale a pena comprar um Rolls Royce, se depois não se tem estrada para andar nele.” No que diz respeito à nova central de gás que a EDP pretende construir em Angola, as obras podem arrancar já em 2011, disse o administrador da eléctrica portuguesa. A central vai ter uma potência instalada de 600 megawatts e deverá representar um investimento de cerca de 300 milhões de euros por parte da EDP e da Sonangol.

Bruno Martins

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