Divina “Garra do Diabo” cresce sob ameaça nos solos da Namíbia
A “Garra do Diabo” é uma planta originária da Namíbia e do deserto Kalahari, no Sul da África.
Com um nome sugestivo, a “Garra do Diabo” é uma planta milagrosa que cresce na Namíbia e no deserto Kalahari, no Sul da África. É utilizada mundialmente em várias aplicações terapêuticas, como no combate a artrites e problemas musculares. Isto, graças às suas componentes anti-inflamatórias. Sustento para os habitantes daquela região, esta planta protegida pelo governo da Namíbia tem sido alvo de vários programas para a preservação da sua biodiversidade.
Ancestralmente utilizada pelos nativos africanos, na forma de infusão, a Garra do Diabo, também conhecida por Harpago ou Harpagophytum procumbens, é uma planta originária da Namíbia e do deserto Kalahari, no Sul da África. O nome popular vem do aspecto ramificado e lenhoso com barbas semelhantes a garras.
As suas propriedades medicinais começaram a ser reconhecidas no final do século XIX, sendo actualmente utilizada para tratar problemas relacionados com entorses, tendinites ou dores musculares. As suas aplicações terapêuticas são mundialmente reconhecidas, e a planta é cada vez mais utilizada no tratamento de reumatismo e artrite, devido às suas componentes naturais anti-inflamatórias.
Lei protege, habitantes não
Apesar de ser considerada Planta Protegida desde 1977, medida tomada pelo governo da Namíbia para fazer face à sua colheita intensiva e desregrada, continua a ser recolhida de forma desenfreada. Os primeiros registos de exportação em grande escala desta planta remontam a 1962, sendo que até 1975 as folhas secas da “Garra do Diabo” foram exportadas a uma média diária de 15 mil quilos. Números que viriam a aumentar drasticamente devido a uma política de exportação pouco sustentável, baseada apenas no lucro e na economia de sobrevivência da população local.
Segundo algumas licenças de exploração emitidas a partir de 1991, a exportação da “Garra do Diabo” cresceu de forma exponencial com um aumento dramático. Se no ano de 1998 foram exportadas 400 toneladas de folha seca da planta, no ano seguinte o número cresceu para 600 toneladas.
Vários projectos para preservação
Para fazer face à colheita desenfreada desta planta indígena, vários programas governamentais têm sido implementados na região da Namíbia. Há cerca de duas décadas, o executivo decidiu criar um sistema de licenciamento para regular a colheita e transporte da planta. No entanto, os resultados práticos dessas iniciativas parecem não ter tido os efeitos desejados, isto porque se existiam habitantes que cumpriam o estabelecido pelo governo, outros colhiam na calada da noite as suas raízes e vendiam-nas no mercado negro para exportação, essencialmente para a Alemanha.
Em 2008, a Integrated Rural Development and Nature Conservation (IRDNC), uma Organização Não Governamental local, iniciou um programa para promover os benefícios da colheita sustentável de plantas indígenas, entre as quais figurava a “Harpagophytum procumbens”.
Quem também decidiu não baixar os braços foram os cientistas do Instituto de Recursos Naturais em África (UNU-INRA), que em conjunto com professores da Universidade da Namíbia ainda lutam contra a extinção da planta. Ao longo dos tempos, a recolha exaustiva de tubérculos da planta, especialmente junto a áreas populacionais na Namíbia, tem originado uma destruição severa e quase massiva deste valioso recurso natural, muitas vezes única fonte de rendimento para as populações onde cresce. Na verdade, estima-se que cerca de dez mil famílias namibianas dependam exclusivamente desta planta.
Cativeiro pode pôr fim à extinção
Promover a reprodução da “Garra do Diabo” de forma sustentada em cativeiros criados especificamente para esse efeito foi a solução apontada durante um seminário organizado pelo Programa Nacional de Apoio de Serviços Agrícolas da Namíbia (NASSP). Na sequência deste encontro nacional, os cientistas da Universidade da Namíbia, liderados pelo professor Osmund D. Mwandemele, desenvolveram uma proposta de investigação conjunta com cientistas da UNU-INRA. Como a planta poderá ser cultivada e gerida em zonas específicas de exploração controlada? O estudo, que ainda permanece no terreno, tem demonstrado que a propagação em grande escala da “Garra do Diabo”, através de cultura de tecidos ou micro propagação por indução, é uma possibilidade que pode vir a dar grandes resultados. O grupo de trabalho tem vindo a plantar caules, folhas e extractos de raízes da planta para ver até que ponto é possível alargar a área de produção induzida.
Apesar da extinção das espécies constituir uma parte natural do processo de evolução, actualmente devido às actividades humanas e às alterações climáticas, os ecossistemas estão mais ameaçados que em qualquer outro período histórico. As perdas de diversidade ocorrem a todos os níveis.
Governo quer fazer cumprir lei de preservação da biodiversidade
É precisamente para travar esta exportação sem bases de sustentabilidade e preservação de uma planta protegida que o governo da Namíbia decidiu implementar uma nova lei que garante a preservação da sua biodiversidade na região, onde a “Garra do Diabo” é uma planta dos Deuses. A nova Política Nacional sobre a utilização dos produtos relacionados com a planta visa facilitar a sua conservação e preservação, assegurando que a forma como é extraída e comercializada cumpre os requisitos necessários à continuidade da sua biodiversidade.
Nesse sentido, técnicos do ministério do Meio Ambiente e Turismo da Namíbia vão acompanhar de perto o uso da “Garra do Diabo”. O executivo quer garantir que os métodos de exploração sustentável são meticulosamente cumpridos. Para tal, a nova lei baseia-se na recolha de informações junto do produtor para que o processo de crescimento e exportação seja adequado aos recursos de um país que vê na “Garra do Diabo” quase um símbolo nacional.
Fins terapêuticos
A “harpagophytum procumbens” actua como anti-inflamatório, sendo indicada como auxiliar no tratamento da artrite reumatóide e desordens degenerativas do sistema locomotor, como artrose, bursite, fibromialgia, epicondilite, tendinite entre outros processos inflamatórios. Composta por propriedades medicinais muito específicas, tem poder analgésico, anti-reumático, antiartrítico, anti-espasmódico, anti-inflamatório e cicatrizante. É ainda usada como um estimulante digestivo e para fortalecimento do sistema linfático.
Além das doenças músculo-esqueléticas, as suas propriedades são ainda indicadas para tratamento do ácido úrico, colesterol, desintoxicação do fígado e melhoria das funções hepáticas. É também um forte aliado contra a obesidade, devido ao seu poder diurético.
A Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB)
O ano de 2010 foi eleito o ano da Biodiversidade, mas a conservação da diversidade biológica, assim como a utilização sustentável dos seus componentes, é um tema que há vários anos figura nas agendas diplomáticas a nível mundial. A criação de uma convenção, que protegesse a natureza e os seres vivos que nela habitam, foi abordada pela primeira vez em Junho de 1972, em Estocolmo, Suécia, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente Humano. Em 1973, o Conselho Governamental para o novo Programa das Nações Unidas para o Ambiente identificou a “conservação da natureza, da vida selvagem e dos recursos genéticos” como uma área prioritária. Na base da criação da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) esteve o aumento da preocupação da comunidade internacional relativamente à perda crescente e sem precedentes da diversidade biológica. A criação de um instrumento vinculativo legal que englobasse todos os aspectos da diversidade biológica – genomas e genes, espécies e comunidades, habitats e ecossistemas – teve como objectivos “a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável dos seus componentes e a partilha justa e equitativa dos benefícios provenientes da utilização dos recursos genéticos”, passando a sua preservação a ser uma preocupação comum da Humanidade e parte integrante do processo do desenvolvimento económico e social.
António Rodrigues







