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“Vive-se um momento único na relação entre Portugal e Angola”

Francisco Ribeiro Telles, embaixador de Portugal em Angola. Francisco Ribeiro Telles, embaixador de Portugal em Angola.

Francisco Ribeiro Telles, embaixador de Portugal em Angola, não tem dúvidas de que existe entre Portugal e Angola “uma relação de futuro”. Em entrevista à África Today, o embaixador fala sobre os benefícios que ambas as nações têm em remarem para o mesmo lado. Pelo meio, deixa um conselho aos empresários portugueses que cada vez mais estão a apostar no mercado angolano: “Pensem a longo prazo, porque Angola tem essa capacidade de se poder pensar a longo prazo”.

Podemos afirmar que a relação entre Portugal e Angola vive um momento único. Como é que se sente com esta situação? Qual é a sua apreciação?
Penso que as relações entre Portugal e Angola nunca estiveram tão boas. De facto, vive-se um momento único. Para mim é especialmente gratificante assistir a este momento muito alto do nosso relacionamento. A tendência vai ser cada vez mais para consolidar e aprofundar as relações, para que esse momento único continue no futuro, porque são relações muito densas e intensas as que se verificam actualmente.

Está em Angola há três anos e meio. A sua vinda foi uma opção estratégica do governo português? É difícil falar em causa própria, mas desde essa altura o Presidente de Angola já visitou Portugal, e agora o Presidente de Portugal visitou Angola…
Não creio que seja uma opção estratégica. Talvez tenha pesado o facto de eu ter estado em Cabo Verde durante anos, de conhecer bem os países africanos. Isso talvez tenha pesado na decisão do governo em enviar-me para aqui. E, de facto, também houve essas situações bastante positivas: a visita que José Eduardo dos Santos fez a Lisboa e a vinda de Cavaco Silva a Angola. Para um embaixador, e no decurso do seu mandato, são sempre os momentos mais altos. Mas isso também obedece a um trabalho anterior, que tinha vindo a ser feito pelo meu antecessor, que de certa forma tinha preparado terreno para que isso acontecesse.

O que considera que deva ser destacado desta visita?
Esta visita comportou aspectos muito significativos. Não destacaria um aspecto dos outros, até porque não me parece bem, porque houve momentos muito altos nesta visita. Mas destaco a empatia e a cumplicidade que existe entre os dois presidentes. São personalidades políticas que se conhecem há mais de 20 anos e que sempre dialogaram, quer nos momentos difíceis de Angola, quer nos momentos fáceis. Isso ajudou a criar entre os dois chefes de Estado uma empatia e cumplicidade muito forte. Por outro lado, destacaria também uma questão que o Presidente português quis assinalar, que foi a sua visita a duas províncias: Huíla e Benguela, no sentido de incentivar e apoiar os empresários portugueses a começarem a investir nessas zonas. Para não pensarem apenas em Luanda e procurarem parcerias com angolanos para o desenvolvimento dessas duas províncias. Por outro lado, a sua ida à União dos Escritores Angolanos e também à exposição que houve aqui no Centro Cultural Português de um fotógrafo português e de um escritor angolano. Tudo isso para aproximar as duas culturas e para reafirmar a importância da língua portuguesa no contexto internacional.

Falou-se em muitos aspectos positivos. Não querendo ser pessimista, pode haver algo que pode correr menos bem nesta relação? Há riscos?
A relação Portugal-Angola não é uma relação conjuntural, é uma relação estrutural. É uma relação de futuro. Nós não podemos pensar no relacionamento entre os dois nos próximos dois anos. Eu penso neste relacionamento nos próximos 20/25 anos, porque esse é o tempo que se deve pensar o nosso relacionamento. É uma questão que tem muito que ver com os empresários portugueses que aqui vêm. Não pensem a curto prazo. Se pensam a curto prazo não vale a pena virem. Pensem a longo prazo, porque Angola tem essa capacidade de se poder pensar a longo prazo.

Aliás, essa foi uma das mensagens que o Presidente Cavaco Silva quis frisar…
Exactamente. E esta relação é um diálogo permanente. Nós temos muita coisa para falar e discutir. Poderá haver situações de futuro mais difíceis ou menos fáceis, mas isso será resolvido através do diálogo.

Por falar em língua e cultura, foi anunciado pelo Presidente Cavaco Silva a construção de uma escola portuguesa em Benguela. É realmente um pacto ou é um desejo?
A comunidade portuguesa em Angola está a crescer. Não apenas em Luanda, mas também em Benguela, no Lubango e no Huambo. Portanto, é importante que se vá pensando… Temos uma escola portuguesa em Luanda e no Lubango, e é também importante que haja uma escola portuguesa em Benguela. Sabemos que existe essa vontade e essa perspectiva de alguns empresários e empresas portuguesas. E o Presidente Cavaco Silva incentivou realmente para que essa escola possa vir a ser uma realidade num futuro muito próximo.

O modelo de gestão será corporativo?
Será privado. Ao contrário da escola de Luanda, onde houve um investimento muito significativo do Estado português, e tendo em conta a situação orçamental do país neste momento, o que pretendemos é que haja um conjunto de individualidades, de empresas, de portugueses, que possam vir a pensar numa escola portuguesa em Benguela, com terrenos cedidos pela administração.

O que considera que Portugal tem a aprender com Angola e vice-versa? O que cada um tem para dar ao outro?
É uma questão complexa. Além do conhecimento da língua, nós temos uma empatia especial com o povo angolano. Aquilo que referi há pouco, de nos sentirmos bem em Angola. Temos, se calhar, a mesma percepção para diferentes situações. Isso faz com que a nossa presença aqui seja uma presença, à partida, acarinhada, bem-vinda e saudada pelo povo angolano. Temos muitas referências em comum, culturais, desportivas. E tudo isso faz com que Portugal tenha aqui mais-valias em relação a outros países que não conhecem Angola tão bem como nós. Em relação aos angolanos a mesma coisa. Conhecem os portugueses há muito tempo. Há assunto constante entre os dois países, famílias, negócios. E tudo isso ajuda a fomentar a ligação muito profunda que existe entre os dois.

Quais são os próximos desafios a curto e médio prazo para os dois países, tendo em conta esta relação intensa?
O principal desafio que Portugal tem aqui é contribuir para o desenvolvimento social de Angola e contribuir sobretudo para que Angola possa ter, no futuro, recursos humanos adequados ao desenvolvimento do país. Não podemos ver as relações entre Portugal e Angola apenas como relações de negócios. Temos de as ver como relações que ajudem Angola a ser um país de futuro no continente africano. E para isso, vejo duas áreas nas quais a cooperação portuguesa pode ser determinante. A educação e a saúde. Aí, continuamos a ter mais-valias importantes, e são esses grandes desafios que Angola vai ter no futuro. Também na agricultura e na justiça, que são áreas, digamos, prioritárias, onde Portugal pode dar uma grande ajuda. Angola está a crescer muito. Na área da educação tem uma população escolar que explodiu muito nos últimos anos. Mas acho que temos condições para ajudar a criar os quadros de futuro e de poder ter os recursos humanos que sejam adequados ao que Angola pretende ser.

Por falar em recursos humanos. Há cada vez mais portugueses em Angola. Não só os empresários, mas todo esse know-how que os empresários trazem consigo e que vêm para Angola com a perspectiva de melhorarem as suas condições de vida. Qual é a sua opinião sobre isso?
É verdade. A comunidade portuguesa aqui está a aumentar. Penso que a tipologia do expatriado português foi mudando ao longo dos anos. Neste momento, o português que vem para Angola vem sobretudo de um quadro com qualificações académicas apreciadas, que vem fazer uma experiência profissional a Angola na banca, nos serviços ou numa consultora. Enfim, em diferentes domínios. E que de uma maneira geral se sente bem. E até irá passar aqui alguns anos. São pessoas qualificadas e que estão a contribuir para que Angola possa também crescer de forma mais sustentada. Muitos dos portugueses começam também a trazer família. Existe a vontade de vir para Angola fazer a sua vida profissional.

Tem conhecimento sobre os números da comunidade portuguesa?
Como sabe, os registos nos consulados não são obrigatórios. Naturalmente, haverá mais portugueses que estarão por Angola e que não estão inscritos. Temos cerca de 80 mil portugueses inscritos em Luanda e 12 mil em Benguela.

Outros dos assuntos que foi também muito falado na visita de Cavaco Silva foi a questão dos vistos. Entretanto, aconteceu a cimeira da CPLP, na qual se discutiu o estatuto do cidadão lusófono. Como diplomata, qual o caminho que considera que iremos seguir?
Em relação à questão dos vistos é preciso ver que o fluxo entre Lisboa e Luanda aumentou muito nos últimos anos. Entre a TAP e a TAAG temos 20 voos semanais, praticamente cheios de um lado e do outro. Se calcularmos uma média de 200 pessoas por voo, chegamos à conclusão do número de pessoas que viajam entre as duas capitais, e dá também uma ideia do que tem sido a actividade nos consulados e da emissão de vistos, pelo que passaram a ser um assunto muito importante no relacionamento entre os dois países. Há que melhorar as coisas, agilizar procedimentos, equiparar legislações. Nesta visita, foi decidido constituir-se uma Constituição Bilateral entre os dois países, para vermos quais os principais constrangimentos que podem ser melhorados no futuro, para que tudo possa acontecer de forma mais célere. Quando ao estatuto do cidadão lusófono, é um dos grandes objectivos da CPLP. Repare que a CPLP é constituída por oito países de quatro continentes com estádios de desenvolvimento muito assimétricos, de forma que é um objectivo, mas que não irá ser implementado a curto prazo. Temos de ser realistas em relação a isso. Será uma discussão permanente entre os estados, de forma a aproximar a CPLP do cidadão comum. E o cidadão comum deve ter consciência do privilégio que tem em pertencer a uma organização que se chama CPLP. E daí a necessidade de se criar o estatuto de cidadão lusófono. Alguns passos já foram dados, mas há muita coisa por fazer. Não lhe posso dizer quando o estatuto estará completamente implementado. 

Cláudia Cardoso

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