Como aprender com os “experts” do dinheiro
Crédito: D.R.
Dizem que o pior foi estar longe de casa. Mas todos confessam que foram bem acarinhados por quem os recebeu. Vieram dos países que falam português e viveram três meses em Lisboa. O rumo da viagem foi o Instituto de Formação Bancária de Portugal (IFB). São profissionais qualificados à procura de uma especialização de futuro. Conversámos com eles no rescaldo de um curso intensivo.
Antes de chegarem traziam o rótulo de membros dos quadros técnicos de entidades bancárias. Mas quando entraram nas salas do IFB começaram a ser tratados como alunos. A designação é mais que apropriada. Desde 19 de Abril até 8 de Julho que os 34 pupilos estavam preparados para aprender mais na 9ª edição do Curso Integrado de Gestão Bancária (CIGB). Foram seleccionados entre os candidatos com funções tecnicamente qualificadas dos Bancos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e da República de Timor-Leste (TL).
Uns vivem em casa de familiares, outros ficaram alojados em hotéis no centro da cidade. Entre as horas preenchidas daqueles 90 dias, todos “nutrem uma insofismável ânsia de saber”. As palavras são de José António Cavaleiro, Formador do IFB há 23 anos. “As populações dos PALOP, em geral, e os colaboradores bancários, em especial, têm vindo a desenvolver um louvável esforço de valorização, revelando-se cada vez mais formados e informados”, esclarece.
A análise do formador nasce do tipo de aulas que ambos partilham. Entre o aprofundamento teórico de temas como os Sistemas Financeiros Africanos, Tendências Estratégias na Banca e Ética na Banca e Sigilo Bancário, as aulas têm uma forte componente prática, construída com ajuda de casos práticos africanos. Funcionam como um fórum de debate e explanação de pontos de vista, que se convertem em “verdadeiros propiciadores de geração de conhecimentos”, explica José Cavaleiro.
Com uma média de idades compreendidas entre os 30 anos, o entusiasmo de aprender parece ser mais notório nos formandos angolanos. São sempre os mais presentes, sendo que se regista também uma evolução qualitativa nos alunos de Cabo Verde. Victor Gopaul e Tânia Gouveia mostram esta tendência. Do banco Caixa Geral Totta de Angola veio Victor. Confessa-se atento ao “desenvolvimento veloz e exigente” das sociedades de hoje, pelo que se sente “obrigado a estar preparado e constantemente actualizado para ultrapassar os futuros desafios”. A vontade de aprender e de conhecer novas experiências é semelhante Tânia Gouveia. Proveniente do Banco BIC, explica que este curso serviu como uma “oportunidade de trocar conhecimentos sobre o sector bancário de culturas diferentes” e, acima de tudo, como “progressão da carreira e realização profissional”.
Para Nelson Moreira, oriundo de Cabo Verde (Banco Comercial do Atlântico), da experiência em Portugal salienta o “intercâmbio entre os colegas, professores e equipa do IFB, e a vivência em conjunto dos problemas que afectam cada um dos países”. No entanto, conta-nos que, em alguns momentos, a distância teve a sua influência. “Não foi fácil, pois viver longe da família exige muito, mas por uma causa justa como esta vale a pena sempre sacrificar-nos”, afirma.
Já o seu parceiro Izequiel Costa mostra-se mais racional. O facto de estar afastado dos seus entes queridos não o atrapalhou. “Esta é uma situação para a qual já estávamos preparados, pelas informações previamente recebidas sobre a durabilidade da formação”, elucida. Convicto, auto-caracteriza-se: “Estou certo de que aquando da avaliação do meu desempenho irei beneficiar de alguma promoção. O meu desempenho necessariamente terá de ser melhor”, completa o funcionário do Banco Internacional de São Tomé e Príncipe.
O futuro do futuro
Apesar de este ano não ter contado com a presença de formandos da Guiné-Bissau e Timor-Leste, por motivos de natureza conjuntural, desde 2001 que o CIGB foi feito para aumentar os conhecimentos de especialistas bancários. A parceria entre o IFC e os sistemas bancários dos PALOP começou cedo. A aliança começou em 1983, com a criação de estruturas de apoio de formação à distância em Angola e Moçambique. Mas a ambição de expandir a ideia levou à construção de um projecto global. E há pouco mais de nove anos, a Associação Portuguesa de Bancos (APB) – à qual pertence o IFB – comprometeu-se a colaborar financeiramente.
Desde então já se formaram no IFB/CIGB – que este ano celebra o seu 30º aniversário – cerca de 240 profissionais. Com a ajuda de uma bolsa de 1200 euros (1600 dólares), os bancos que se fazem representar pelos formandos assumem as restantes despesas de viagens e alojamento. Entre as sete horas de aulas por dia, sessões complementares, visitas de estudo e ainda a preparação para exames por cada área curricular, o curso exige por parte dos alunos um “know-how” para lidar com situações de pressão. A atribuição de um diploma de qualificação técnico-profissional depende dessa mesma prova de esforço.
Por tudo isto, os alunos que os bancos enviam para frequentar o curso integram os quadros técnicos dos mesmos. “O seu nível de conhecimentos tem vindo a crescer. No 9º CIGB a preparação dos formandos à chegada era superior à dos formandos da primeira edição”, conclui Luís Vilhena da Cunha, director-geral da IFB e presidente da direcção do Instituto Superior de Gestão Bancária (ISGB).
O prestígio do IFB e da sua aposta no desenvolvimento do sector bancário em Portugal e em países de África e da Europa já lhe valeu uma distinção. Em 2008, conquistou o “EBTN Quality Award” pela European Banking and Financial Services Training Association.
E num futuro podem ocorrer mudanças. “O enorme desenvolvimento e sofisticação que se estão a verificar no sector bancário de Angola têm como consequência o forte aumento das necessidades de formação dos empregados dos bancos, quer daqueles que estão a iniciar as suas carreiras, quer dos que já estão na profissão”, conta Vilhena da Cunha. Por este motivo, o director-geral diz confiar que “vai ser possível lançar, em parceria com o Instituto de Formação Bancária de Angola, vários cursos de preparação para todos os estratos de empregados de bancos”.
Mas o projecto tem ainda espaço para crescer. Segundo Vilhena da Cunha, são muitos os pedidos para a concretização de mais cursos: “A realização do CIGB tem sido fortemente aplaudida, não só pelos respectivos formandos, como também pelos seus bancos. Temos recebido pedidos de vários bancos de Países Africanos de Língua Portuguesa para realizar mais que uma edição por ano”. Com a ideia ainda em estudo, o mesmo não tem dúvidas. “Posso garantir que pelo menos uma edição por ano do CIGB vamos continuar a realizar”.
E a julgar pelas palavras dos que por lá já passaram, o projecto é bem-vindo. “Depois da formação, muitos formandos contactam-me com o objectivo de tirar dúvidas, com o propósito de se manterem actualizados, de os ajudar a preparar entrevistas para oportunidades de ‘upgrade’ no seio dos respectivos bancos. Patenteiam um acentuado inconformismo que não podemos deixar de sublinhar”, acrescenta José Cavaleiro. E Victor concorda. “Esta formação veio acrescentar em nós mais algum valor e um maior grau de conhecimento às actuais e prováveis futuras funções. E isso vai ajudar a desenvolver a instituição onde trabalho e o meu país”.
Joana Tavares da Silva







