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Burro doméstico descende do burro selvagem da Núbia

Muito se tem especulado sobre qual a verdadeira origem do burro doméstico, espécie cada vez mais em vias de extinção. Uma teoria defende que a ascendência do quadrúpede é africana, e outra defende que é do Médio Oriente. As dúvidas são agora dissipadas, com a publicação de um estudo na revista “Proceedings of the Royal Society B”, que confirma a existência das duas linhagens, mas revela que o burro selvagem da Núbia é o “pai” do burro doméstico.

Terá a domesticação do burro enquanto animal doméstico acontecido em África ou no Médio Oriente? A resposta a esta pergunta já fez correr rios de tinta em revistas da especialidade, com vários artigos publicados em defesa de uma ou de outra teoria. Ambas têm fundamento, mas uma equipa de investigadores apanhou agora “o fio à meada” e terá desvendado a verdadeira linhagem do animal. Para tal, foram necessários seis anos de investigação. Uma equipa de investigadores que se dedica à biodiversidade, na qual participou o português Albano Beja Pereira, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos do Porto, tem vindo a estudar a fundo esta questão, e descobriu a peça que faltava na árvore genealógica do burro.
Num artigo publicado na revista “Proceedings of the Royal Society B”, os autores do estudo desvendam que, afinal, o jumento selvagem africano que começou por ser domesticado há cerca de seis mil anos foi o burro da Núbia, na região do vale do Nilo, partilhada entre o Egipto e o Sudão. Os investigadores confirmaram ainda a existência das duas linhagens do animal pelo que, durante a investigação, não houve nenhum elo perdido das teorias anteriores. Desvendado foi definitivamente o grande mistério sobre a ascendência do burro doméstico, já que os cientistas comprovaram através do ADN que o burro selvagem da Núbia, no Sudão, é, por assim dizer, o primeiro “pai” do burro doméstico. Seguiu-se a domesticação do quadrúpede na Somália e só depois no Médio Oriente.
Certo é que o burro da Núbia, no Sudão, está quase extinto. “São tão poucos que não têm viabilidade. Devem ser menos de cem e não há nenhum em jardins zoológicos”, o que dificulta a existência de planos de recuperação, lembrou Albano Beja Pereira. Em relação ao burro da Somália, o cenário não é muito distinto. Segundo o cientista do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos do Porto, na Somália, Etiópia e Eritreia existem “menos de 600 na natureza, mas em cativeiro ainda vivem cerca de 50 e há planos de recuperação”. Apesar de viveram em algumas das regiões mais áridas e desertas da terra, e resistirem à escassez de água e de alimentos, “no último século, a pressão sobre os burros selvagens africanos levou-os à beira da extinção”, lamentou Beja Pereira.

Origem controversa do burro em estudo desde 2004
Em 2004, o especialista português, juntamente com colegas estrangeiros, decidiu debruçar-se sobre a controversa origem da domesticação do burro, num artigo publicada na revista “Science”. Enquanto alguns cientistas defendiam que o “Equus asinus”, nome científico da espécie, descendia do “Equus africanus”, o burro selvagem africano, e que a domesticação tinha acontecido no Norte de África, outros alegavam que a mesma sucedera no Médio Oriente, já que o jumento selvagem africano também viveu em Israel, na Síria, no Iraque e no Iémen.
Para dissiparem as dúvidas que pairavam sobre a verdadeira origem da domesticação do animal, os cientistas deram início a um complexo processo de análise de ADN contemporâneo de burros selvagens africanos e de jumentos domésticos de 52 países. Em 2004, os vários cientistas envolvidos no processo anunciaram que a domesticação tinha, de facto, ocorrido em África. Apesar de a teoria ter sido comprovada, uma dúvida pairou até aos dias de hoje: por terem analisado somente ADN contemporâneo e por muitos burros terem desaparecido no século XX, não estaria a escapar-se-lhes a contribuição de outra linhagem? E estava. Partiram então à procura de amostras de ADN antigo. As amostras foram encontradas na Europa em alguns museus de história natural, que nas suas colecções integravam amostras de ADN de burros selvagens, mas também achados arqueológicos de restos de animais domésticos e selvagens que remontavam ao início da domesticação.
O mistério só agora foi desvendado: o ancestral do jumento doméstico é o burro selvagem da Núbia, do Sudão, em África. Durante o estudo sobre a linhagem genética dos asnos, a equipa de investigadores descobriu ainda que os humanos domesticaram o burro selvagem africano ao longo de décadas e que o animal várias vezes procriou com parentes selvagens que deram origem a várias linhagens.

Curiosidades
- O burro é um mamífero da família dos Equídeos;
- É o animal mais teimoso do mundo, daí a expressão “teimoso que nem um burro”;
- O burro selvagem da Núbia distingue-se pelas riscas pretas no lombo e nas patas;
- Alguns burros selvagens da Somália são solitários, outros vivem em manadas que podem ter até 50 membros;
- O Homem começou a domesticar o burro há seis mil anos;
- Os jumentos foram parte importante da economia africana no que diz respeito ao comércio terrestre.

Tipos comuns de burro
Na generalidade, existem duas raças de burro: o selvagem e o doméstico, ambas em vias de extinção. O burro selvagem tem duas ascendências, uma provém de África (da Núbia e Sudão), outra do Médio Oriente, ambas frequentemente representadas nas pinturas rupestres do Saara, há mais de mil anos. Conhecido pela sua resistência física, o burro selvagem alimenta-se durante a noite e o seu pêlo tem uma tonalidade bege/castanha clara, com um risco escuro no lombo e nas patas. Os machos pesam em média 300 quilos e tendem a viver sozinhos ou em pequenos grupos. Já as fêmeas e os animais jovens percorrem montanhas e pastagens do nordeste africano. No caso do burro doméstico, vulgarmente utilizado como meio de transporte de mercadorias no campo, a pelagem é cinzenta escura e distingue-se dos outros equídeos por ter as orelhas mais desenvolvidas e tufo de crinas na cauda. Com uma longevidade média de 20 anos, embora possa atingir os 40, a estrutura do burro varia consoante o clima e a raça, tendo em média entre 1,35 a 1,45 metros de comprimento. Uma característica inerente ao burro doméstico é a sua teimosia. Ao contrário do cavalo, que tem capacidade para cavalgar até morrer se o dono assim ordenar, o burro, quando está cansado, pára e dali não sai.

Características comuns
- Comprimento do corpo: 1,20 a 1,50 metros;
- Comprimento da cauda: 40 a 45 centímetros;
- Altura: 1,50 a 2,00 metros;
- Peso em idade adulta: 250 a 300 quilos;
- Maturidade sexual: aos dois anos;
- Período de gestação: 11-12 meses;
- Crias: uma por nascimento;
- Desmame da cria: 6 a 8 meses;
- Esperança média de vida: até aos 40 anos.

A.Rodrigues

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