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“Melhorar o acesso à água potável, saneamento e higiene transforma vidas”

No século XXI ainda existem cerca de 884 milhões de pessoas a viver sem água própria para consumo”. No século XXI ainda existem cerca de 884 milhões de pessoas a viver sem água própria para consumo”.

James Crampton, director de comunicação da Diageo África, revela, em entrevista à África Today, quais os projectos da empresa em Angola e no continente africano. Disponibilizar água potável para as populações mais carenciadas, bem como condições de saneamento, são algumas das principais metas a cumprir.

 

A Diageo é líder mundial em bebidas “premium”. Como surgiu a ideia de se associarem à Organização Não Governamental (ONG) Water Aid, que ajuda pessoas a escapar à pobreza e a doenças ligadas ao facto de viverem sem água potável e saneamento? 
A água é um bem fundamental para o nosso negócio. Sendo um dos principais investidores a longo prazo em África, com mais de 13 cervejarias e fábricas, também somos um dos principais consumidores de água a operar em países que têm escassez ou em que o acesso à mesma não é regular. O projecto que estamos a desenvolver com a WaterAid, bem como com outras ONG´s em África, tem como objectivo implementar o nosso programa Water of Life, que visa proporcionar todos os anos água potável a um milhão de pessoas até 2015. Este é o caminho certo a ser percorrido.

Como surgiu e em que consiste este programa?
Em 2006, a Diageo lançou o “desafio de 1 milhão - uma acção para incentivar a implementação do Programa Water of Life”. Este desafio pretende apoiar e contribuir para a décima meta do programa das Nações Unidas “United Nation’s Millennium Development Goal 7 (MDG)”, que tem como propósito reduzir para metade o número de pessoas sem acesso a água potável e saneamento básico.

Porque entrou Angola na rota do projecto agora criado entre a Diageo Water of Life e a WaterAid?
Angola, infelizmente, tem índices muito baixos de acesso a água potável e saneamento, por isso, acreditamos que, além de investimentos e iniciativas que o executivo angolano muito bem tem implementado nesta área, o país ainda pode beneficiar da presença de uma organização como a WaterAid, que tem uma forte experiência na resolução destas dificuldades, bem como do investimento da Diageo. A nossa empresa pretende fazer a diferença junto das comunidades e mercados onde opera. As marcas já comercializadas em Angola, como a Johnnie Walker, Smirnoff, J&B e Guinness, estão amplamente implementadas e este tipo de projectos vêm reforçar a nossa aposta e compromisso para com o mercado angolano.

O objectivo é trazer água potável e saneamento a mais de 38 mil pessoas em Angola… O que está a ser feito nesse sentido?
O grande objectivo deste projecto é proporcionar água potável e saneamento a cerca de 38 mil residentes na área metropolitana de Luanda até 2013. Numa primeira fase, a decorrer até final de 2011, cerca de oito a 12 mil pessoas beneficiarão de água potável e saneamento básico. O projecto irá proporcionar um sistema de baixos custos, fornecimento de serviços sustentáveis de água e de saneamento, enquanto se criam bases para que os membros dessas comunidades e grupos locais possam eficazmente fazer o planeamento, concepção e gestão destes serviços a longo prazo. Serão organizados workshops para aumentar a consciencialização e a prática das regras de higiene.

Angola é um destino que realmente necessita da intervenção ou da ajuda externa neste sector?
Tal como acontece em muitos países africanos, Angola tem baixos níveis de acesso a água potável e saneamento básico, logo existe uma maior necessidade de expandir o acesso a esses mesmos serviços. A instabilidade que se verificou no país contribuiu para que nem sempre fosse facilitado o acesso a água e saneamento. Este tipo de serviços demoram a ser implementados e o nosso envolvimento é no sentido de complementar o trabalho em desenvolvimento pelo governo angolano.

O Dia Mundial da Água celebrou-se a 22 de Março, e nessa data realizou-se, no Reino Unido, a Meia Maratona Anual da Diageo Water of Life. Qual o objectivo desta iniciativa?
A meia maratona “Water Of Life” e o “10k” são eventos anuais para comemorar o Dia Mundial da Água, que pretendem angariar fundos para o programa com o mesmo nome. A primeira edição realizou-se em 2009, e o número de participantes tem vindo a crescer, tendo este ano participado mais de mil pessoas na prova.

Tem ideia do montante angariado?
Para o projecto que está a ser desenvolvido em Luanda, até ao momento foram angariadas cerca de 68 mil libras (111 mil dólares). Os números finais ainda não estão disponíveis, porque a angariação de fundos estende-se além deste evento. Todos os fundos serão directamente doados à WaterAid para implementação deste projecto.

Cerca de 884 milhões de pessoas não têm acesso a água potável no mundo… Como é possível verificar-se um cenário tão negro?
É um facto que no século XXI ainda existem cerca de 884 milhões de pessoas a viver sem água própria para consumo e mais de 2,6 mil milhões a viver com a falta de um sistema sanitário adequado. Em 2000, todos os 189 estados membros das Nações Unidas assinaram o compromisso “Millennium Development Goals” (Objectivos do Milénio), um conjunto de metas para reduzir a pobreza no mundo até 2015, onde estão incluídos os objectivos para combater as graves carências de água e saneamento existentes. Enquanto o mundo está perto de conseguir cumprir ou ultrapassar a meta de reduzir para metade a proporção de pessoas que não tem acesso a água potável, o saneamento básico está a sofrer grandes e sérios atrasos. Ao ritmo das taxas actuais de desenvolvimento, as metas estabelecidas de saneamento só serão cumpridas 30 anos mais tarde que o previsto. Na África Subsaariana, a meta estabelecida de saneamento pode não se cumprida por mais de 200 anos.

No caso de Angola, qual é o panorama e o que pode ser feito para que os números diminuam?
O WaterAid estima que o país tenha vários níveis de água disponíveis no país, com uma cobertura média de água de 51 por cento. Outras estimativas apontam para que 55 por cento dos lares tenham uma casa de banho. Com o actual crescimento da população e com o êxodo das zonas rurais para as urbanas, tornou-se difícil a actualização em termos de infra-estruturas que acompanhem esse desenvolvimento, criando grandes pressões nos respectivos serviços. O interior rural apresenta níveis populacionais baixos, só cinco por cento vivem na zona oriental. Isto sucede pela recente história de conflito civil, que destruiu grande parte das infra-estruturas. Noutras regiões onde existe escassez de água, as duas grandes áreas de intervenção são as infra-estruturas de purificação de água e distribuição e a educação/consciencialização das regras de higiene e boas práticas sustentáveis de gestão da água.

Quais são as províncias mais afectadas? 
O crescimento populacional e a migração rural para as zonas urbanas significam a falta de recursos para lidar com a crescente pressão demográfica, o que coloca uma grande pressão sobre os serviços que já operam além da sua capacidade. O interior rural do país é escassamente povoado. Em Luanda, onde este projecto está focado, a criação de infra-estruturas não acompanhou a rápida expansão da cidade. Os sistemas existentes de tratamento de esgotos e de recolha de lixo não são suficientes, quando, por exemplo, a drenagem dos resíduos provenientes de fossas sépticas em domicílios acontece apenas a uma escala muito pequena.

Quais os motivos que estão na origem do elevado número de pessoas sem acesso a água potável e saneamento, e o que pode ser feito para minimizá-lo?
Melhorar o acesso à água potável, saneamento e higiene transforma vidas – livres de doenças causadas por águas contaminadas e por saneamento precário. As pessoas obtêm melhores condições de vida e as crianças são capazes de ir à escola, tendo uma melhor educação. Em Luanda, a WaterAid irá trabalhar com seus parceiros. Os “Development Workshops” serão desenvolvidos nas áreas suburbanas da cidade, com o objectivo de melhorar a saúde e a qualidade de vida de 38 mil pessoas, através de um melhor acesso a água potável, e a mais 12 400 pessoas através de instalações básicas de saneamento e de um maior conhecimento de boas práticas de higiene durante os próximos três anos. O projecto irá proporcionar um sistema de baixos custos, fornecimento de serviços sustentáveis de abastecimento de água e de saneamento básico enquanto cria bases para os membros dessas comunidades e grupos locais fazerem eficazmente o planeamento, concepção e gestão de serviços. 

Se alargarmos o leque para os restantes países africanos, que balanço é possível fazer?
Por toda a África, milhões de pessoas vivem sem água potável ou saneamento básico. Muitas mulheres e crianças provenientes das áreas rurais passam diariamente horas a caminhar quilómetros para recolher água de fontes não seguras. Nas áreas urbanas, muitas vezes a recolha de água é feita de cursos de água poluídos ou em alternativa têm de pagar um preço elevado para a adquirir por fornecedores. A água geralmente é poluída e imprópria para consumo, mas há frequentemente uma alternativa. Por estas razões, o nosso programa WaterAid está focado na África Subsaariana. Acreditamos que o acesso à água potável pode e deve ser uma realidade para todos os africanos, e o sucesso da WaterAid em levar água potável a mais de um milhão de africanos, a cada ano desde a sua criação, é a prova que pode ser alcançado. Estamos orgulhosos por estar a contribuir para o acesso de água para todos e para a realização da meta 10 do “UN Millennium Development Goal 7”, que pretende reduzir para metade o número de pessoas sem acesso a água potável e ao saneamento adequado. 

É verdade que cerca de quatro mil crianças morrem diariamente devido a doenças provocadas por águas impróprias e más condições sanitárias?
No mundo desenvolvido, as doenças causadas por água contaminada e falta de saneamento são a causa de morte de quatro mil crianças a cada dia. Na África Subsaariana, a diarreia é o maior causador de morte de crianças menores de cinco anos. Estas doenças podem ser evitadas: fornecendo água, saneamento e higiene reduz-se o número de mortes causadas por doenças diarreicas para uma média de 65 por cento, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). A simples prática de lavar as mãos com sabão nos momentos mais críticos pode reduzir a incidência de diarreia até 47 pontos percentuais, de acordo com a UN Water.

O que podem as pessoas fazer para contrariar esta tendência? 
Educação, acima de tudo, e boas práticas de higiene são fundamentais para a redução das taxas de mortalidade infantil. Os cidadãos também podem ajudar, ao estarem mais sensibilizados e terem um maior conhecimento da importância dos serviços básicos, como água e saneamento. Em muitos países africanos, organizações da sociedade civil estão a trabalhar nesse sentido, e no Dia Mundial da Água cerca de 350 mil pessoas caminharam em solidariedade com os 884 milhões de pessoas que não têm acesso a água potável.

É possível fazer doações?
Para fazer donativos basta ir à página da WaterAid (www.wateraid.org). Para mais informações sobre o projecto Water Of Life pode consultar a página www.diageo.com. 

Que mensagem gostaria de enviar aos angolanos?
A parceria que a Diageo estabeleceu com a WaterAid neste projecto faz parte de um programa mais vasto, que visa beneficiar todos os anos mais de um milhão de pessoas em África. Estamos felizes por estar a contribuir para o melhoramento das condições de acesso a água potável e saneamento básico em Angola. A WaterAid, com o apoio da Diageo, continuará a trabalhar com as comunidades locais, organizações da sociedade civil, ONG’s e com o governo, para melhorar o acesso a água potável e saneamento à população em Angola. Nos últimos 30 anos, a WaterAid acumulou conhecimentos técnicos e experiências e está a aplicar todo o seu “know-how” no desenvolvimento das comunidades mais pobres em Angola.

Quem é a Diageo?
A Diageo é líder mundial de bebidas “premium”. Tem um vasto leque de marcas, nas quais se destaca as alcoólicas, as espirituosas, os vinhos e as cervejas. O seu portefólio inclui as mais distintas e importantes marcas, como Johnnie Walker, Guinness, Smirnoff, J&B, Baileys, Cuervo, Tanqueray, Captain Morgan e Crown Royal, bem como os vinhos Beaulieu Vineyard e Sterling Vineyards. A Diageo é uma empresa de âmbito global, que esta representada em mais de 180 países. Está listada na Bolsa de Nova Iorque e na de Londres. 

A Diageo África
Actua sobretudo na fabricação de cerveja, mas também na destilação, na maioria dos países da África Subsaariana. 
A Guinness, em particular, tem uma ligação longa com a região. O primeiro registo de exportações desta cerveja para a África foi para Serra Leoa, em 1827. Agora é produzida em mais de 20 países no continente, sendo exportada para muitos outros. O mercado africano é responsável por quase um terço das vendas da Diageo, no que diz respeito à cerveja. Algumas das maiores sucursais da Diageo em África estão cotadas nas bolsas locais. 
A Guinness Nigéria, por exemplo, tem mais de 60 mil accionistas. Nos últimos 30 anos, a WaterAid atingiu com os seus projectos cerca de 14.380 mil pessoas

Os números da água… 
- Pelo menos 4.000 crianças morrem diariamente devido a doenças provocadas por água imprópria e por saneamento precário
- 884 milhões de pessoas não têm acesso a água potável (uma pessoa em cada oito)
- 2,6 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento adequado (quase dois quintos da população mundial)
- Em cada dólar investido em água e saneamento, oito são devolvidos no aumento da produtividade. Com 15 libras (25 dólares) pode ajudar-se uma pessoa a ter acesso de água potável, higiene e saneamento

Ângelo Delgado e Frederico Gonçalves

 

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