Um “Erasmus Lusófono”
Jorge Ferrão, vice-presidente da AULP. Crédito: DR
Um erasmus, mas apenas para professores e alunos lusófonos. É este o projecto que a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) se propõe a colocar em funcionamento já em 2012. A África Today falou com o vice-presidente da entidade, Jorge Ferrão, para melhor perceber este programa de mobilidade apenas para falantes da língua de Camões.
As instituições de ensino superior dos países lusófonos estão a estudar a criação de um programa de mobilidade, que deverá ficar definido já no próximo ano. No fundo, trata-se de uma espécie de “Erasmus Lusófono”, ideia que vem sendo discutida no seio da AULP. A última ocasião em que esta possibilidade foi abordada aconteceu em Junho, em Bragança (Portugal), onde se deram mais alguns passos para a concretização do programa.
Em conversa com a África Today, Jorge Ferrão, vice-presidente da AULP, explica que a base deste projecto passa por haver uma aproximação dos níveis de formação académica nos vários países que têm o português como língua mãe. “O programa de mobilidade assenta em princípios que são comuns aos sistemas europeus e americanos. Pretende-se reduzir a assimetria existente entre alguns países que fazem parte deste programa. Falamos no aprimoramento das metodologias de formação e pesquisa, e na análise e avaliação de dados disponíveis”.
Garantir uma maior competitividade face às universidades que possuem o francês e o inglês como principais idiomas é outro dos objectivos inerentes ao programa de mobilidade desenvolvido pela AULP. “Só assim a lusofonia poderá participar na geração de conhecimento para competir com as outras escolas de pensamento anglófono e francófono”, explica o académico.
Possuir um nível de aprendizagem e experiência totalmente diferentes do que se faz nos países de origem será, no entender de Jorge Ferrão, uma das grandes mais-valias para alunos e professores. “Se um estudante brasileiro quiser pesquisar sobre elefantes ou rinocerontes e precisar de efectuar uma pesquisa de campo, seria em África que teria as melhores possibilidades. Por outro lado, imagine-se o aluno ou professor africano que pretenda desenvolver experiências genéticas, seria num laboratório de ponta no Brasil ou em Portugal que melhor poderia trabalhar”.
Ainda no mesmo registo, o responsável refere que cada um dos países envolvidos no programa possui identidade e especificidade próprias que lhe tipificam e conferem potencial para albergar diferentes estudos e programas de pesquisa.
O derrube de fronteiras
“O mundo assiste a uma mudança paradigmática, onde o capital humano é bem mais importante que o restante. A internacionalização, os mercados decorrentes da globalização fazem com que o capital financeiro não conheça fronteiras e, por essa razão, as empresas operam em qualquer local do globo”, frisa o vice-presidente da AULP enquanto aborda a nova ordem mundial, onde uma pessoa qualificada pode trabalhar em qualquer parte do mundo.
Desta forma, além da experiência académica ganha-se, igualmente, um forte conhecimento de outra realidade política, social e económica, factores de extremo enriquecimento cultural para qualquer aluno ou docente. Disso mesmo dá conta o professor universitário, realçando essa possibilidade nos países em questão. “Para a academia lusófona a mobilidade permitiria um conhecimento mais específico e rigoroso da realidade de cada uma das nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mesmo perante a teoria que advoga que a mobilidade facilita a fuga de cérebros, as vantagens são de longe bem mais importantes que os riscos. Com o aumento da mobilidade teremos, inclusivamente, uma ferramenta para valorizar as associações com falantes da língua portuguesa e ultrapassaremos o preconceito de que a CPLP apenas foi criada para políticos e diplomatas”.
Financiamentos individuais
Numa primeira fase, aquando do arranque definitivo do programa, cada país irá organizar as várias formas de comparticipação financeira. Com o passar do tempo, alguns parceiros serão convidados a colaborar. “De princípio, cada país terá os seus fundos e farão as propostas de acordo com a sua disponibilidade em participar e comparticipar. Depois, deveremos recorrer a parceiros, como temos feito até agora. As fundações e outras instituições nacionais serão chamadas a colaborar. Não existem fundos assegurados, mas sabemos pela experiência de outros programas similares que é possível fazer com maiores ou menores volumes de verbas”. Ainda em matéria de financiamento, Jorge Ferrão adianta que existe uma proposta do Brasil, designada Programa Internacional de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Extensão (PIAPEE) e outra de Portugal, da Ciência Global, que têm um “financiamento considerável”.
Esperando que este “Erasmus Lusófono” arranque já em 2012, o responsável alerta, por outro lado, para a impossibilidade de todos os países começarem o programa ao mesmo tempo. “É impossível fazer com todos de uma única vez, porém, é crucial manter a unidade e beneficiar todos os membros e não membros das AULP”, afirma, ressalvando que “entre alguns países africanos e o Brasil já funciona o pró-África, programa que facilita a ida de estudantes de tradução para as universidades brasileiras, para se iniciarem na pesquisa e investigação”.
Para saber que universidades aderiram ao programa, bem como os vários cursos (licenciaturas, pós-graduações, cursos livres, mestrados e doutoramentos) disponíveis no mesmo, aceda ao site www.aulp.org.
Ângelo Delgado







