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Corno de África, a pior crise dos últimos 60 anos

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Doze milhões de pessoas poderão morrer no Corno de África, resultante da seca que assolou a região. Para vários analistas internacionais, esta é a pior crise dos últimos 60 anos. Por outro lado, um ”mea culpa” assumido: a comunidade internacional demorou a agir e isso é admitido. O estado de fome foi declarado.

 

“Toda a região vai sucumbir à fome”. Frase forte e dramática, mas que consta do documento da OCHA, agência de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU), numa alusão à grave seca que assola todo o Corno de África, nomeadamente na Somália, Djibuti, Uganda, Etiópia, Quénia e Sudão, e que ameaça a vida a cerca de 12 milhões de pessoas. A ONU está a verificar uma taxa de mortalidade diária de 7,4 pessoas por dez mil residentes. O estado de fome é atribuído, regra geral, quando a taxa de mortalidade é de dois por dez mil.
A crise nesta região africana, com a Somália no centro das atenções, vai continuar a aumentar e, por isso, o envio de alimentos não pode parar um só instante. As ajudas, segundo a OCHA, devem ultrapassar os 1,4 mil milhões dólares, já que é necessário custear uma crise humanitária que “vai estar sempre em crescendo nos próximos quatro meses”.
De acordo com a ONU, Agosto e Setembro serão meses em que os alimentos irão faltar nos campos de refugiados. “As zonas identificadas como de maior risco nos próximos seis meses são o Sul e Centro da Somália, o Sul e o Leste da Etiópia e os campos de refugiados no Djibuti, Quénia e Etiópia”, revela o documento. O relatório refere ainda que estes dois últimos países apenas deverão começar a sair do alerta vermelho perto do fim do ano. Já a Somália – onde algumas zonas estão sob controlo da al-Shabab, organização islâmica ligada à Al-Qaeda - não possui, ainda, um momento específico de recuperação, devido aos “elevadíssimos níveis de subnutrição, às péssimas condições de pastoreio e às colheitas que estão muito abaixo dos níveis normais para a época”.

Para ajudar a combater aquela que já é considerada a crise mais aguda dos últimos 60 anos na região, o Banco Mundial (BM) anunciou a disponibilização de 500 milhões de dólares. A decisão foi tomada pouco antes de uma reunião de urgência na sede da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO). O comunicado do BM refere ainda que a este valor somam-se os 12 milhões de dólares já desbloqueados para uma “ajuda imediata aos mais afectados pela crise”.
“O alívio imediato é a primeira prioridade e é importante agir rapidamente para reduzir o sofrimento humano. Porém, estamos atentos a soluções mais distantes temporalmente”, afirmou o presidente do BM, Robert Zoellick.
Em jeito de aviso, o líder máximo daquele banco lembrou que a “longo prazo é importante para os países do Corno de África prepararem-se para as secas recorrentes que as alterações climáticas tornarão cada vez mais intensas”.

A guerra e o “esquecimento”
A entrada do Programa Alimentar Mundial em certas zonas do Corno de África tem sido dificultada pelos conflitos ali existentes. O grupo islâmico al-Shabab proibiu qualquer tipo de ajuda humanitária. A capital da Somália, Mogadíscio, e parte do território do Quénia e da Etiópia são controlados por aquele grupo que alegadamente terá ligações à Al-Qaeda.
Um dia após a ONU ter distribuído comida na capital somali, registaram-se violentos confrontos entre a al-Shabab e o governo interino, que apenas controla parte da cidade. Fontes deste executivo afirmaram, em declarações à BBC, que conseguiram ganhar terreno ao grupo islâmico, sendo que cerca de 60 por cento da capital já está sob seu controlo, incluindo a zona do porto, aeroporto e a área circundante ao palácio presidencial, no sul de Mogadíscio.
Além dos conflitos, muitas têm sido as vozes que reclamam de um suposto “esquecimento” da comunidade internacional relativamente a esta situação. Barack Obama, Presidente dos EUA, foi um dos que reconheceu que o seu país não tem dado atenção suficiente ao que está a suceder no Corno de África. “Falámos sobre como podemos trabalhar em conjunto para evitar a iminência da crise de África, que, no nosso território, não tem recebido a atenção que merece”, criticou, após uma reunião com alguns políticos africanos.
António Guterres, Alto-comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR), considerou que a seca e a fome em África representam “um drama de proporções desconhecidas”, lamentando, igualmente, a fraca capacidade de resposta da comunidade internacional até agora. “Estamos angustiados porque o que fazemos não é suficiente quando vemos a dimensão da tragédia. Estamos perante um drama humanitário de proporções desconhecidas”, disse Guterres.
A Igreja também se mostrou revoltada com a situação e lançou um apelo para que “ninguém fique indiferente à tragédia da fome e seca no Corno de África”. Segundo o Papa Bento XVI, aquela região sofre de consequências “dramáticas, agravadas pela guerra e falta de instituições sólidas”.
Mais contundente foi o ministro da Agricultura francês, Bruno Le Maire, ao considerar que as instituições mundiais falharam redondamente. “A comunidade internacional falhou a assegurar a segurança alimentar. Se não tomarmos as medidas necessárias, a fome será o escândalo deste século”.

Programa Alimentar Mundial preocupado com crianças
“O nosso principal motivo de inquietação são as crianças. Elas estão de tal maneira fracas e em estado de desnutrição tão avançada, que têm poucas hipóteses, menos de 40 por cento – de sobrevivência. É a pior situação a que já assisti, disse Josette Sheeran, directora do Programa Alimentar Mundial. A responsável explicou, durante uma reunião convocada pela FAO, que na recente visita que efectuou à região foi confrontada com testemunhos de mães que na tentativa de fugirem da fome para países vizinhos tiveram de deixar os filhos pelo caminho. Sheeran lembrou também que foi possível fazer chegar ajuda humanitária a 1,5 milhões de pessoas e que o programa das Nações Unidas atende diariamente cerca de 300 pessoas em Mogadíscio.

Radicais islâmicos fora de Mogadíscio
A capital da Somália foi completamente livre da milícia islâmica al-Shabab. De acordo com o Presidente Sheikh Sharif Ahmed, “Mogadíscio foi libertada do inimigo e o resto do país também o será”. Várias testemunhas viram combatentes rebeldes a sair da cidade, após combates com as forças de governo de transição e da Amisom, força da União Africana que possui nove mil militares do Uganda e Burundi. Os combates e a insegurança em Mogadíscio têm dificultado bastante a organização e distribuição de ajuda alimentar. A cidade é uma das cinco zonas da Somália declarada como área de fome.

Ângelo Delgado

 

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