Revista Africa Today: “Cabo Verde inventa o seu próprio chão e a sua própria água” “Cabo Verde inventa o seu próprio chão e a sua própria água” ================================================================================ revista africatoday on 20/08/2010 08:47:00 “Somos um povo com memória e que aprendeu a transformar a sua dor em esperança!” A autoria desta frase é de Rui Semedo, líder parlamentar do PAICV, durante o seu discurso sobre os 35 anos de independência de Cabo Verde. Ainda no mesmo raciocínio, o deputado lembrou que, além do aniversário da independência, “completam-se agora 550 anos do descobrimento destas ilhas pelos navegadores portugueses”. Cabo Verde festejou, no passado dia 5 de Julho, 35 de anos de independência. A acompanhar as cerimónias de Estado esteve o Presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, entre muitas outras personalidades dos dois países. O Chefe de Estado português elogiou o caminho percorrido por Cabo Verde desde a independência, o qual era considerado, há 35 anos, como o “país improvável, quase impossível”. “O grande agente de mudança foram os recursos humanos notáveis, os homens e mulheres de Cabo Verde”, acrescentou Cavaco Silva. A questão do desemprego foi igualmente abordada pelo político português, que elogiou o tecido empresarial cabo-verdiano. “A aposta na educação e competitividade como solução para o problema do desemprego é uma excelente medida. Fiquei imensamente satisfeito por ouvir falar no reforço de competitividade das empresas”. Igualmente entusiasmado com o rumo do seu país estava o Presidente cabo-verdiano, Pedro Pires. “Cabo Verde fabrica o seu próprio chão, inventa a sua própria água, repete dia-a-dia a criação do mundo”, disse, citando o falecido poeta e Prémio Nobel José Saramago. Outras das personalidades recordadas foi Amílcar Cabral. “Propôs a via de romper com as amarras até à liberdade plena”, lembrou Rui Semedo. Exemplo em África Vários relatórios internacionais apontam Cabo verde como um caso exemplar no contexto africano. Trata-se de um país onde a democracia funciona sem problemas de maior, a alternância política no poder tornou-se uma realidade, o investimento externo começa a dar frutos, com particular destaque para o turismo, e as relações com a antiga metrópole (Portugal) também são excelentes, sendo mesmo o maior parceiro comercial. As conquistas em Cabo Verde foram-se fazendo lentamente. O clima, sempre bastante adverso, dificultou um processo de crescimento mais acelerado. Ainda assim, a taxa de alfabetização situa-se nos 83,8 por cento, sendo de 98 pontos percentuais entre a população jovem. No que diz respeito à esperança média de vida, os números mostram que oscila entre os 69 anos para os homens e os 75 para as mulheres. Outro dado relevante é o facto de Cabo Verde estar em nono lugar no que diz respeito ao índice de desenvolvimento dos países africanos. No ano transacto o crescimento económico foi de 8,9 por cento. Pós-descolonização Após o 25 de Abril de 1974, que desembocou na independência cabo-verdiana a 5 de Julho de 1975, houve uma ligação muito forte à Guiné-Bissau. Apesar de não ter tido um conflito bélico no seu território, Cabo Verde aliou-se à Guiné, fundando o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), fundado por Amílcar Cabral. Este sentimento de união foi-se esvaziando nos seis anos seguintes à independência. Em Novembro de 1980 a união com a Guiné terminou. Um golpe de Estado liderado por Nino Vieira, que derrubou Luís Cabral, irmão de Amílcar, fez com que tudo terminasse por ali. Dez anos depois, em 1990, o sistema unipartidário terminou. No ano seguinte realizaram-se as primeiras eleições multipartidárias, que deram a vitória ao Movimento para a Democracia, principal força de oposição. Actualmente, o PAICV, sucessor do extinto PAIGC, está no poder novamente. O Presidente da República, também oriundo das fileiras do partido fundado por Amílcar, é Pedro Pires, um dos heróis da independência. A nível cultural, Cabo Verde também tem somado inúmeros sucessos. Cantores como Ildo Lobo, Cesária Évora e Bana têm mostrado ao mundo o que de melhor se faz naquelas ilhas do Atlântico. Arménio Vieira, vencedor do Prémio Camões, e Germano Almeida são, também, referência no mundo da literatura. Ângelo Delgado