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Brota vida no deserto do Namibe

Com uma área de 310 mil quilómetros quadrados, o deserto do Namibe estende-se até ao Parque Nacional Nammib-Naukluft, a maior reserva de caça em África.

Um “oceano” de areia, este deserto é formado por inúmeras dunas, encostas, planícies, permeado de lagos e vales, que pela acção do vento está em constante transformação e mudança. Muito quente com elevadas temperaturas, além do clima altamente seco e da água escassa, as mudanças de temperatura são enormes. Durante o dia, o calor é de rachar, acima dos 60º. De noite faz frio, chegando a temperaturas abaixo de zero.

Apesar de todas as dificuldades, algumas espécies animais e florestais habitam o deserto do Namibe. Entre as plantas, sobressai a Welwitschia Mirabilis, que pode viver mais de cem anos, graças a um dispositivo natural que permite absorver a humidade do ar a partir das folhas.
Entre os animais, destacam-se a cobra-do-deserto, o elefante africano, a ave inseparável-de-faces-rosadas, bem como algumas espécies de lagartos, entre outros que conseguem ­sobreviver no clima severo. Tal como a Welwitschia Mirabilis, existem animais que adpotaram estratégias curiosas para vencer a falta de água. Muitos são capazes de tirar todo o líquido de que necessitam dos alimentos que consomem, principalmente cactos.
É difícil de acreditar, mas existem peixes capazes de sobreviver no deserto. Um desses casos raros é o bagre. Com a sua pele escura e de apenas 20 centímetros, o bagre  vive em nascentes e lagoas de águas quentes. Quando o cacimbo se aproxima e a água esfria um pouco, ele entra em estado de hibernação, enterrando-se no fundo da lagoa para ali permanecer até ao começo da estação quente.Os lagartos do deserto mantêm-se em actividade até mesmo nos ­horários mais escaldantes do dia. Mas para se protegerem do calor do solo, que pode superar os 60º, eles deslocam-se em alta velocidade.

Vida no deserto

Além da escassa vida animal e florestal, também existe actividade humana no deserto do Namibe. Parece impossível, mas uma parte do território próxima do rio Curoca é habitada por agricultores.
Os habitantes produzem pepino, milho, tomate, jimboa e mengueleka numa área de trinta mil hectares. O sistema de irrigação utiliza água subterrânea a partir de furos e poços, apesar de um período de seis anos de estiagem.
As agruras da vida no deserto não desmotivam Mingo, Domingos, São, Natália e outros que partilham o espaço e dividem as tarefas produtivas ao serviço de um proprietário.
As cubatas de capim seco, paus e plásticos erguidas no topo de um monte são lugares de repouso depois do trabalho agrícola, com enxada e catana, e servem de abrigo do Sol, da chuva e dos ventos fortes do deserto. A cozinha e o espaço social situam-se no exterior, onde é confeccionado o funje de milho com molho de tomate, pepino e folhas, base da sua alimentação.
São e Natália, cuja idade desconhecem, comunicam em umbundo, tal como todos os outros habitantes. Por timidez ou receio da proximidade de desconhecidos, recusaram conversar com os repórteres. Os agricultores são, na maioria, oriundos das províncias da Huíla e Namibe. Fugindo à regra, Domingos Catembe, natural de uma aldeia do Namibe, aceitou falar. Por vontade própria, decidiu há três meses abandonar o lar onde vivia com o pai e mãe, para se dedicar à vida de agricultor no deserto. O jovem nunca frequentou a escola e desconhece a idade. Apenas sabe que nasceu  em 1996. “Na nossa aldeia era difícil conseguir um bom emprego para poder ajudar o pai e a mãe, nem havia escola”, revelou.
Domingos Catembe diz gostar do trabalho que faz e sonha um dia ter a sua própria quinta e poder ganhar muito mais do que os seis mil kwanzas que recebe do patrão no fim do mês. As raparigas recebem cinco mil kwanzas.
O deserto é um ambiente selvagem e potencialmente mortal para seres humanos. As altas temperaturas ­causam uma rápida desidratação devido ao suor e à ausência de fontes de água, podendo resultar em morte em pouco tempo.

Arco do Namibe

A região desértica do Arco, localizada no centro da província, é atravessada pelo rio Curoca. Esta zona húmida de grande beleza possui um potencial turístico desaproveitado e oferece condições para a agricultura.  O Arco tem as suas formas peculiares que caracterizam aquele território e discute-se o papel do rio Curoca na modelagem da paisagem, que faz lembrar um oásis.
O acidente natural situa-se na margem Norte do rio Curoca, a cerca de 73 quilómetros a Sul da capital da província do Namibe e 24 quilómetros a Nordeste da cidade do Tômbwa, no Sudoeste do país.
Entre os vários aspectos que caracterizam o território do Arco, designadamente os bióticos e os abióticos, destacam-se a população constituída por kimbares e a flora, numa paisagem exibindo uma geomorfologia típica das regiões áridas.
Detentor de condições naturais que apresentam grande interesse turístico, a gestão sustentável daquele território requer a tomada de decisões políticas, que garantam a sua preservação. Para tal, urge identificar e avaliar a biodiversidade e a geodiversidade, para fundamentar futuras decisões relativamente à sua adequada gestão, centrando-se no enquadramento geológico e na evolução geomorfológica daquela zona húmida.
Joaquim Rogério é natural do Curoca. Desde muito cedo assumiu-se como o soba do território do Arco que, como afirma, recebe a visita de turistas nacionais e estrangeiros.   Como exemplo, refere a presença de brasileiros que usufruíram da beleza daquela região, durante a gravação de cenas da telenovela “A terra prometida”, também exibida em Angola.

Soba e guia turístico

Entre os vários grupos de turistas que visitam o Arco, estão norte-americanos, espanhóis, portugueses, namibianos e sul-africanos. Além de soba, Joaquim Rogério também desempenha as funções de guia turístico, respondendo às perguntas e saciando a curiosidade dos visitantes.
Naquela zona existe uma extensa lagoa, onde abunda o bagre, rãs e outras espécies endémicas, apesar de seis anos de estiagem. “A seca tem-nos devastado com muita intensidade, mas, graças a Deus, temos pequenas fontes de água a partir de furos feitos no solo onde tiramos a água para beber, tomar banho e suprir outras necessidades”, explica.

Ancestralidade alimenta o potencial turístico

Enquanto na Namíbia, a parte do deserto do Namibe, o mais antigo do mundo, recebe milhares de turistas todos os anos, do outro lado da fronteira, na parte angolana muito há ainda por se fazer. A reabilitação do Parque Nacional do Iona, com acessos, alojamento e infraestruturas de água e luz eléctrica, faz parte de um conjunto de acções concertadas que inclui o novo e moderno aeroporto Welwitschia Mirabilis.
Numa altura em que os operadores turísticos em Angola engajam-se no relançamento da actividade turística, embalados na ideia da necessidade de se diversificar de facto a economia, o deserto do Namibe surge como um dos potenciais turísticos do país, pela fauna e flora da sua envolvência ou pelas seculares tradições dos povos que dele ainda dependem. O deserto do Namibe divide-se em zona de dunas e areias móveis, com cerca de 200 mil hectares, sem água e qualquer tipo de condições para criação de gados. Só em condições excepcionais se faz alguma agricultura e pastorícia, particularmente na área envolvente, que ocupa um terço de toda a província do Namibe.
Pelo meio do deserto fica o Parque Nacional do Iona. Localizado 200 quilómetros a sul da cidade de Moçâmedes, encravado entre o Atlântico e os rios Cunene e Curoca, o Parque Nacional do Iona ocupa uma área de 15.150 quilómetros quadrados e é precisamente aí o centro do deserto.  Em função das características locais, o deserto do Namibe é habitado sobretudo pelas tribos himba, tjimba e pelos mucubais, mas com o grosso da população próxima do mar. Temos também os Vatua, povo que se subdivide etnicamente nas tribos kwepe, kwisi e kuroca.
Outro dos motivos que geram grande expectativa à volta do potencial turístico do deserto do Namibe, isto na parte angolana, é a cultura das tribos do deserto do Namibe, com hábitos e formas de viver ou vestir ainda praticamente ancestrais, totalmente dependentes da pastorícia.
A tribo mais representativa do Namibe é a dos Mucubais, que tem por vocação a pastorícia, mas que ultimamente, devido à seca,é  vista a abraçar a agricultura. A agricultura tende a fixá-los, abandonando o nomadismo que é também um dos factores identitários.

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